Com risco de fechar, CineBancários faz campanha para arrecadar recursos

Sala no Centro Histórico de Porto Alegre é responsável pela exibição de filmes brasileiros e latino-americanos, com preços populares e sessões seguidas de debates.

O cinema brasileiro vive, neste século 21, uma de suas fases mais prolíficas e vigorosas, produzindo longas-metragens em quantidade até então inédita (mais de 150 só no ano passado) e de qualidade internacionalmente reconhecida. Paradoxalmente, o mercado exibidor se fechou de uma maneira poucas vezes vista — alguns dos melhores filmes nacionais são solenemente ignorados pelos grandes distribuidores e exibidores, ficando confinados a salas de nicho cujo alcance nem sempre faz jus ao seu potencial.

A situação em outros países da América Latina não é muito diferente, razão pela qual a política de atuação do CineBancários é duplamente pertinente: ao escolher apresentar seleções de títulos brasileiros e latino-americanos, transformou-se em um espaço de resistência sem o qual grande parte tanto da produção nacional quanto da dos países vizinhos ficaria inexoravelmente relegada à invisibilidade.

Pois, a sala que completou 10 anos em outubro de 2018, localizada na histórica Rua da Ladeira, no centro de Porto Alegre, pede ajuda através de um projeto de financiamento coletivo contínuo que convida os cinéfilos a fazerem doações e, em troca, concede benefícios. Trata-se de uma iniciativa que visa à própria manutenção do espaço, que corre risco de fechamento devido à crise do Sindicato dos Bancários, sua entidade mantenedora.

— Há dificuldades financeiras impostas aos sindicatos pela Reforma Trabalhista aprovada no ano passado — explica a programadora Bia Barcellos. — Com a redução das receitas, o sindicato está com dificuldades para bancar, sozinho, os custos da sala. A ideia é trazer o público para participar do esforço para a sua manutenção. O CineBancários, afinal, é de toda a cidade.

Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Responsável pela seleção dos filmes exibidos, Bia Barcellos deseja fidelizar o público do CineBancáriosJúlio Cordeiro / Agencia RBS

E é mesmo. Nesses 10 anos, foram 113 mil espectadores em mais de 200 lançamentos de filmes brasileiros ou latino-americanos, festivais, pré-estreias e debates com estrelas como Denise Fraga, Irene Ravache e Malu Mader, sessões memoráveis como a de Joaquim (2016), com o diretor Marcelo Gomes e os atores Isabel Zuáa e Julio Machado, e a de Que Horas Ela Volta? (2015), com as atrizes Karine Teles e Camila Márdila. Certo dia, após uma das exibições deste último — que aborda as relações de classe a partir da história de uma empregada doméstica e sua filha —, uma espectadora procurou Bia Barcellos à saída da sala.

— Essa espectadora era ela própria uma doméstica. Me disse, com lágrimas nos olhos, que aquele filme iria mudar a vida dela — lembra a programadora, que antes trabalhou na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro, mantida pela Secretaria de Cultura da Capital.

Um diferencial de Porto Alegre

A casa do cinema brasileiro em Porto Alegre se tornou parte importante do circuito do Centro Histórico, que conta com a Cinemateca Capitólio Petrobras, o Cine Santander e a Cinemateca Paulo Amorim e que — os cinéfilos esperam — voltará a ter a P.F. Gastal. Além da programação alternativa ao circuito de shoppings, esses espaços oferecem sessões com ingressos mais baratos — e, em tempos de projeção digital, com qualidade que nem sempre fica para trás na comparação com o que se vê nos multiplexes.

Camila Domingues / Agencia RBS
Lançamento do projeto de financiamento coletivo será paralelo à estreia de “A Moça do Calendário”, de Helena IgnezCamila Domingues / Agencia RBS

É esse “outro lado” da cinefilia — um diferencial da cidade no contexto nacional — que precisa resistir. Onde mais, afinal, o público veria um filmaço como Era o Hotel Cambridge (2016), sobre a ocupação de um prédio abandonado, e depois o discutiria com o ator José Dumont?

O espectador que frequenta o CineBancários tem a sensação de ver a história do país e do cinema nacional contemporâneo se construindo aqui e agora, a partir do que está na tela e de todo o contexto da vida real fora da sala.

Como funciona

  • O Clube CineBancários é um projeto de financiamento coletivo contínuo na plataforma Apoia-se.
  • Os colaboradores podem contribuir mensalmente, com valores entre R$ 10 e R$ 40.
  • Em contrapartida, receberão benefícios como ingressos gratuitos e informações antecipadas da programação.
  • Saiba mais em apoia.se/clubecinebancarios.