Como a maior facção do Brasil estreita laços com grupo criminoso gaúcho

A reportagem ouviu policiais, membros do Judiciário, da Promotoria e pesquisadores para entender a ligação do PCC com Os Manos.

“Nóis temo (sic) um fechamento com o pessoal do PCC (Primeiro Comando da Capital).” O trecho da mensagem de áudio enviada por um dos líderes da facção Os Manos, com base no Vale do Sinos, evidencia o estreitamento de laços com o maior grupo criminoso do país. O diálogo foi divulgado durante ação do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) no fim de junho para desarticular rede de lavagem de dinheiro. Para compreender a real influência no Estado e as conexões com a quadrilha gaúcha, a reportagem ouviu policiais, membros do Judiciário, da Promotoria e pesquisadores.

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A conversa foi exposta na operação que sequestrou R$ 5 milhões em bens da facção do RS. Nela, o criminoso corta negociação com outro e exige o depósito de R$ 1 milhão. Os alvos da investigação são suspeitos de utilizar rede de laranjas para ocultar valores do tráfico internacional e venda de entorpecentes no Rio Grande do Sul.

— Ultimamente, fizemos operações nas quais foi constatada essa presença, influência, do PCC aqui. Incluindo remessa de drogas para facções gaúchas. Na Operação Borgata (na qual foi divulgado o áudio), isso fica evidenciado, essa relação entre PCC e Os Manos, do Vale do Sinos — afirma o diretor do Denarc, delegado Vladimir Urach.

A operação é o mais recente de 14 pontos identificados pela reportagem desde 2001, quando chegou ao Estado o preso Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, hoje principal líder do grupo paulista. Desde então, as polícias e o Ministério Público (MP) identificaram série de tentativas do PCC de fixar vínculos em solo gaúcho. O delegado cita ainda a prisão de um traficante paranaense, em junho, que transportava drogas do Mato Grosso do Sul para o RS. Ele foi capturado em Gravataí, na Região Metropolitana, em ação conjunta do Denarc com a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

— Era um dos fornecedores, especialmente de crack e cocaína. Essa relação no fornecimento de drogas é bem visível que existe, que há ligação. Desde aquela época do Marcola se criaram alguns núcleos nas prisões, embora sem muita expressão — explica Urach.

Em agosto do ano passado, documentos obtidos nas prisões em São Paulo (SP) e citados em denúncia do MP, indicavam que os criminosos enviavam armas a aliados no RS para enfrentar rivais. Um delegado da Grande Porto Alegre confirma que a parceria com a facção do Vale do Sinos foi constatada. Seguindo rastro de criminosos, investigadores chegaram a integrantes em SP.

—  Existe essa aliança. Estão muito fortes, organizados. São uma empresa do crime — avalia o delegado.

Em dezembro, investigação da Polícia Civil gaúcha também identificou que roubos de veículos estavam sendo executados em Porto Alegre, a partir de encomendas do PCC. Um dos elos seria um foragido da Justiça gaúcha, abrigado no Paraguai. Os veículos eram pagos com maconha e cocaína, revendidas no Vale do Sinos.

(sic) embolado com os (sic) PCC — diz um dos alvos, em áudio obtido pela polícia.

Também no fim do ano passado, outra investigação da polícia identificou a ligação entre criminosos, que tinham apoio dos bandidos paulistas e faziam ameaças a policiais civis no Vale do Sinos – diziam que iriam assassinar três agentes. A facção paulista tem em seu histórico assassinatos de policiais e queima de ônibus como forma de pressionar autoridades.

— Não assassinar policiais ou não incendiar ônibus constituem ações de “barganha” das facções. Estão ocorrendo essas coalizões aqui e fora do Estado. Entramos num cenário muito delicado.  Se a segurança pública não começar a pensar na perspectiva nacional, vamos pagar o preço no futuro — alerta o cientista social Charles Kieling, professor de Tecnologia em Segurança e Gestão Pública da Feevale e coordenador do Observatório de Segurança de Novo Hamburgo.

Ainda em 2012, um manuscrito com as principais regras do PCC foi apreendido no Presídio Central — maior cadeia do RS. Evidenciava a tentativa da facção criar raízes. No cenário prisional atual, os paulistas se aliaram a facções gaúchas para ter proteção nas galerias.

— No comércio, por cima, das drogas, controle de rotas, parece-me inevitável a conexão. São facções muito ricas. Todavia, no controle local dos territórios, galerias, o PCC não tem influência. A relação é comercial, no andar de cima — pondera um membro do Judiciário.

Faz parte da nacionalização das facções prisionais o projeto de expansão do PCC, por meio das cadeias e da migração de bandidos, em geral, com experiência em ataques a bancos, inclusive no modelo novo cangaço (com cordão humano). No dia 9 de agosto, durante assalto a uma agência na zona norte de Porto Alegre — onde teriam sido levados cerca de R$ 1,2 milhão — um dos ladrões disse que era integrante do grupo paulista.

Para o delegado João Paulo de Abreu, da Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), não há comprovação desse vínculo. A quadrilha é investigada por outros ataques na Capital.

— Nos parece que foi uma forma de deboche desse criminoso.

O secretário da Segurança Pública do Estado e vice-governador do RS, Ranolfo Vieira Júnior afirma que as tratativas entre facções em um mundo globalizado são possíveis. Mas nega que os criminosos paulistas tenham conseguido estabelecer alianças mais fortes no Estado. 

— De maneira geral, existem conversas entre esses grupos. É inevitável. Mas não temos nada de concreto de ação do PCC aqui. Sabemos que eles fizeram tentativas, de assaltos, como aquele do túnel que acabou sendo frustrado (ataque ao Banrisul), mas não recordo de nenhuma que tenham tido êxito. Talvez, por isso, não tenham se estabelecido. 

Comandante-geral da Brigada Militar, o coronel Mario Ikeda também afirma que não se percebe influência dos criminosos nas ruas.

— No policiamento ostensivo, no patrulhamento nas cidades, nas áreas de tráfico, não notamos a atuação da facção no Estado. Sabemos que tem presos ligados à facção nos presídios, que tem alguma relação com facção local — diz.

Para Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), autor do livro “A guerra – A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”, a redução dos homicídios, percebida de maneira geral no Brasil em 2019 (21,2% no primeiro quadrimestre, em comparação com o mesmo período de 2018, segundo o Ministério da Justiça), indica que os criminosos têm feito mais alianças.

— É importante entender a nova configuração do mercado de drogas. Que funcionam como empresas do crime. Ao mesmo tempo, os líderes estão em boa parte nos presídios, vulneráveis à ação do Estado. Esses caras são empresários, calculam custo e riscos. Isso consegue induzir mais esses grupos a fazer acordos e tréguas — explica Paes Manso, que publicou o livro em coautoria com a socióloga Camila Nunes Dias.

Contatos entre presos

Ao mesmo tempo em que é apontada como uma das estratégias para reduzir homicídios nos Estadosno RS, foram 326 assassinatos a menos entre janeiro e julho, em comparação com o mesmo período de 2018— a transferência de líderes de facções para penitenciárias federais também é indicada como uma das hipóteses para que essa relação entre criminosos gaúchos e paulistas tenha se estreitado. 

Em julho de 2017, houve envio em massa de chefes de quadrilhas para fora do RS. Presos gaúchos passaram a ocupar as mesmas cadeias que integrantes da cúpula de organizações já estabelecidas em território nacional. Há seis meses, 21 lideranças foram transferidas de SP para penitenciárias federais. Entre eles, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, que permaneceu pouco mais de um mês na penitenciária de Porto Velho.

Paulo Liebert / AGE-ESTADÃO CONTEÚDO
Marcola foi transferido em fevereiro para penitenciária federalPaulo Liebert / AGE-ESTADÃO CONTEÚDO

— Quando se enviou esses líderes para prisões federais, eles entraram em contato. As articulações, as organizações, as coalizões do crime estão sob o manto dessa grande organização, que está determinando a reengenharia do crime. Diminuíram os homicídios na medida em que essas quadrilhas passaram a integrar esse processo — avalia o cientista social Charles Kieling.

Em Rondônia, estão 14 presos gaúchos isolados. Na ação de fevereiro, Mossoró, no Rio Grande do Norte, também recebeu membros do PCC. Na mesma prisão estão detentos gaúchos considerados líderes na facção do Vale do Sinos, incluindo o que teve o áudio divulgado em junho e tem sentenças que somam 133 anos de encarceramento. A conversa teria sido enviada por ele antes de ser levado à unidade federal, em agosto do ano passado.

— O ideal seria isolar esses caras aqui dentro do Estado. Para que não tivessem esse contato dentro da cadeia. O PCC e o Comando Vermelho estão há muitos anos em penitenciárias federais, conhecem a dinâmica. Já aprenderam formas de se comunicar. E de estender essas relações para outros Estados — pondera um delegado da Polícia Civil da Capital.

Coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário nacional da Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho não acredita que o contato nas penitenciárias federais tenha sido responsável por estreitar essas relações. O especialista argumenta que o isolamento dificulta a influência dos criminosos do lado de fora e defende, inclusive, que o regime adotado nessas prisões seja ainda mais rigoroso.

— A compra, o processo de entrega, distribuição, sempre foi feita com algum tipo de parceria. Sabe-se que o PCC vem procurando parcerias em outras praças. Estados que fazem fronteira são importantes porque são rotas e, por isso, fazem alianças. Não acredito que o problema seja a penitenciária federal. Isolar é ponto importante para controle do crime. Impacta na redução da violência, que vem sendo sentida no país. O isolamento, como no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado, onde presos passam o dia todo na cela), deveria ser a tônica das prisões — afirma.

Drogas, armas e expansão

Em contrapartida à perda de autonomia e compromisso financeiro e moral, os benefícios para os filiados do PCC, estariam o empréstimo de armas, capital para novos crimes e contatos com rede de fornecedores de drogas. A maior apreensão de fuzis realizada pela Polícia Civil neste ano no RS foi de armas que pertenciam à facção do Vale do Sinos.

Em junho, em um sítio em Novo Hamburgo, dentro de um galpão os agentes desenterraram seis fuzis. Foram encontrados ainda R$ 385 mil em cédulas. Um dia antes da apreensão do dinheiro e dos fuzis, também na Lomba Grande, a Polícia Federal (PF) apreendeu 255 quilos de cocaína, no fundo falso de um caminhão com placas do Paraná. Segundo a PF, foi a maior apreensão de cocaína no Estado neste ano.

— Os caminhos já estão estabelecidos e controlados pelo PCC. Isso ajuda os grupos daqui a ganhar mercado. E, com isso, mais dinheiro, mais armas. Essas organizações, quando entram em parceria começam a ganhar know how com estratégias e novos mercados. Entram nas rotas do mercado internacional — avalia Charles Kieling.

Nos últimos anos, a estratégia de expansão da facção paulista vem sendo posta em prática. Em 2018, o MP e a Polícia Civil de SP identificaram que os criminosos tinham reduzido o valor da taxa paga pelos membros e até aberto mão dela em alguns locais, com o intuito de angariar mais integrantes. O RS aparecia em 13º em número de “batizados”, com estimativa de 729 simpatizantes no Estado.

Assim como os paulistas, a facção gaúcha possui estatuto organizado, descoberto a partir de escutas do MP em 2015. Um dos itens do documento citava cobrança de mensalidade. O argumento era que o valor seria usado para bancar advogados, ajudar famílias de presos e comprar armas. A mesma estratégia é historicamente empregada pelo PCC.