Como atua equipe antissequestro do RS que libertou médica de cativeiro no Paraná

Leticia Mendes | Zero Hora

Negociação, treinamento para resgate, artes marciais e empatia com familiares estão entre as aptidões de policiais.

— Tá na mão. Tá na mão! A vítima tá na mão!

A mensagem eufórica enviada por um policial às 22h57min da quarta-feira passada (21) resumiu o desfecho esperado há dias. O áudio era o alerta aos colegas da Polícia Civil sobre o resgate de Tamires Regina Gemelli da Silva Mignoni, 30 anos. A médica havia sido levada por criminosos na sexta-feira anterior, em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul. O cativeiro foi descoberto a 400 quilômetros, no município de Cantagalo, no Paraná.

Oito horas após Tamires desaparecer, o primeiro contato do criminoso que mantinha a médica encarcerada confirmou a extorsão mediante sequestro. Às 19h07min, o bandido falou com o pai da ginecologista por cerca de três minutos. Exigiu de Berto Silva, 52 anos, R$ 2 milhões para libertar sua única filha. Ordenou que não acionasse a polícia e mantivesse a imprensa longe do caso. Mas o pai, prefeito de Laranjeiras do Sul, no Paraná, já estava a caminho de Erechim, onde pretendia buscar o genro. Regressou de lá no dia seguinte, com o marido da filha, e escoltado por 18 policiais.

Para rastrear o paradeiro da vítima, a polícia gaúcha colocou em campo um grupo especializado: a equipe antissequestro formada pela 1ª Delegacia de Polícia de Repressão a Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). O grupo passaria a atuar em duas frentes dali em diante: assessorar a família nas negociações e rastrear quem estava por trás do crime.

Estar em contato direto com os familiares da vítima é um dos diferenciais para o qual a equipe antissequestro precisa estar preparada. Em Laranjeiras do Sul, o pai e o marido de Tamires, o dentista Lucas Centenaro Mignoni, permaneceram o tempo todo acompanhados de dois policiais. Eram orientados sobre como deveriam agir em cada contato dos criminosos. Ao mesmo tempo, dividiam com eles as angústias e expectativas.

— Dentro dessa valorosa equipe, temos vários perfis, os mais dedicados à área operacional, e os que têm essa capacidade de entender as famílias, essa empatia. E, ao mesmo tempo, precisam passar com credibilidade aquilo que estamos fazendo. Os policiais acabam se alternando ao longo dos casos — explica o delegado João Paulo de Abreu.

Além da família, saber analisar o perfil de quem está por trás do crime é um dos conhecimentos essenciais. Entender quem é o sequestrador, ao longo da negociação, permite traçar estratégias. Cada criminoso tem suas características, alguns são mais violentos. Mas, na maioria dos casos, há um ponto em comum: a busca pelo dinheiro. Há casos de sequestros movidos por vingança, mas são menos comuns. No caso da médica, a polícia descobriu que não havia um grupo organizado envolvido. Um vigilante, que residia próximo da família de Tamires, e uma mulher foram presos pelo crime.

Em julho deste ano, em outro caso atendido pela equipe, uma mulher de 52 anos foi levada para um cativeiro na Vila Pedreira, na zona sul de Porto Alegre. Abordada na Vila Assunção, foi levada pelos criminosos até a casa, onde permaneceu cinco horas, enquanto eles faziam contato com o marido dela. Naquele episódio, os bandidos eram um grupo que visava mulheres para extorquir dinheiro das famílias — dois foram presos no cativeiro, onde a vítima foi resgatada.

Os resgates

Embora seja o momento mais esperado, o resgate também é um período de tensão. Em agosto do ano passado, outro caso mobilizou a equipe até Taquara, no Vale do Paranhana. Uma mulher havia sido sequestrada, e os bandidos exigiam R$ 100 mil de resgate. Um dos criminosos trocou tiros com os policiais no momento em que chegaram ao cativeiro e acabou morto. A vítima foi resgatada sem ferimentos.

Maiara Stumpf / Divulgação
Médica Tamires ao centro, com familiares e policiais que atuaram no resgateMaiara Stumpf / Divulgação

Os policiais da Roubos não são os únicos aptos a investigar sequestros no Estado. Mas, por conta da experiência, quando um caso acontece costumam viajar até a cidade e trabalhar em conjunto com as equipes locais. Foi assim em março, quando uma jovem de 19 anos foi levada de Selbach, no noroeste do Estado. 

Após assaltarem a família, os bandidos sequestraram a filha do casal. O cativeiro, um casebre em Herval Grande, foi descoberto, e os suspeitos presos. A jovem resgatada foi recebida no município de 5 mil habitantes com buzinaço e comemoração. Entrou em casa, carregada no colo, vestindo a camiseta da Polícia Civil.

— Só voltamos para casa depois da vítima — pontua o chefe de investigação Rafael Marinho.

Com 16 anos de polícia, desses metade na Roubos, recorda que em todos os casos de sequestro atendidos pela equipe não houve pagamento do valor exigido. As vítimas foram libertadas pelos criminosos ou por ações do time tático, que treina regularmente técnicas de resgate. Evitar o pagamento do resgate é um dos objetivos do grupo, para não capitalizar o crime.

— Extorsão mediante sequestro é um mal negócio aqui. Se acontecer, nossos cronômetros já marcam a hora zero. É comum colega deixar mulher sozinha no shopping, prato servido na mesa ou abandonar as férias no Litoral — descreve.  

O diferencial no caso da médica Tamires foi o fato de os policiais precisarem se deslocar ainda mais longe, para outros Estados. As equipes se espalharam por Santa Catarina, onde foi montado o primeiro cativeiro, em uma cabana em Itá, e pelo Paraná, onde havia suspeita que os criminosos estariam. Lá, de forma integrada com outras instituições, como as polícias locais e a Polícia Rodoviária Federal, passaram a rastrear os bandidos, até chegar ao cativeiro.

— A Polícia Civil do RS está alinhada com os melhores grupos operacionais de investigação do Brasil. Não somos melhores, temos a compreensão das nossas deficiências. Mas foi simbólico perceber que se essa integração entre as agências da aplicação da lei, como se fala nos EUA, existir e for bem coordenada, não há espaço para que a criminalidade vença — comemora João Paulo.

Hoje delegado, ele trabalhou como investigador em São Paulo. Lá, por oito anos, entre 2002 e 2010, foi integrante da Divisão Antissequestro. No Rio Grande do Sul, atuou em diferentes unidades, até ser escolhido como delegado da Roubos. Ali, voltou a atuar no combate aos sequestros, aquilo que considera sua realização como policial. Chegou a tatuar no braço a frase: “Dou minha vida para lhe resgatar”.

— O resgate é um momento muito especial. Alguns policiais acabam se emocionando tanto quanto a família. É algo que coroa todo o trabalho, toda dedicação, e faz a gente olhar para trás e dar conta de que vale a pena nos entregarmos por essas pessoas. Este é o propósito de todos esses policiais —garante.

Preparo

A delegacia também tem como atribuição apurar outros crimes como roubos e furtos a bancos, ataques a carros-fortes e assaltos a joalherias. Em setembro, capturaram em Lagoa Vermelha, no norte do Estado, um assaltante de banco procurado no país. Identificado em crimes em diversos Estados, como Goiás e Tocantins, Antônio José da Silva, o Paulo Cicatriz, do Pará, foi surpreendido pelos agentes num comércio na cidade gaúcha.

A equipe agrega profissionais com expertise, boa parte com mais de uma década na delegacia. Não há um preparo específico para integrar a equipe, mas os servidores buscam se especializar, com cursos, inclusive fora do Brasil, para atuar em várias frentes. Atendimento Pré-Hospitalar de Combate e artes marciais estão entre as especialidades. No grupo, há atiradores de elite e mais da metade dos policiais ministra instruções na Academia de Policia Civil e em outras instituições.

Em 2017, um evento reuniu no Deic, em Porto Alegre, policiais de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, para trocar experiências sobre técnicas de combate a roubos de bancos e sequestros. Diretor do Deic, o delegado Sander Cajal acredita que o treinamento constante é uma das chaves para manter os policiais preparados.

— São profissionais abnegados, incansáveis e extremamente qualificados. O Deic, como um todo, vem demonstrando, há muito tempo, uma expertise única em suas ações. A sociedade gaúcha merece saber que possui uma das melhores polícias civis do país e a equipe antissequestro não foge desse conceito, é elogiada por vários Estados. Muitos querem vir e aprender com nossos policiais. Tenho muito orgulho em poder conviver e trabalhar diariamente no departamento — diz.