Covid-19 matou mais que o dobro dos policiais assassinados em serviço ou de folga

Um levantamento feito pelo site G1, com base em dados fornecidos pelas Secretarias de Segurança de 26 estados do país, demonstrou que a Covid-19 matou mais que o dobro dos policiais assassinados em serviço ou de folga em 2020. De acordo com os dados coletados, 465 policiais morreram em decorrência da Covid-19, enquanto o número de policiais assassinados em serviço ou de folga no Brasil chegou a 198.

Outro dado assustador, apontado pelo levantamento, é o que mostra que 126.154 policiais foram afastados da função em algum momento, o que representa 25% do total do efetivo no país. Visto de outra forma, um em cada quatro policiais da ativa do país, foi afastado das suas funções por causa da Covid-19.

O maior número de mortes de policiais pela Covid-19, aconteceram nos estados do Rio de Janeiro (65), Amazonas (50) e Pará (49). Em relação ao percentual de policiais afastados, o estado do Tocantins apresentou o maior índice: 38% do efetivo. Todos os estados tiveram, pelo menos, um policial vítima da Covid-19.

É importante ressaltar, que esses números se referem somente ao ano de 2020. Como no ano de 2021, já temos quase o mesmo número de brasileiros mortos de todo o ano de 2020, é razoável deduzirmos que o número de policiais mortos em 2021 também seja semelhante ao número registrado em todo o ano de 2020.

Para pesquisadores, gestão da Pandemia nas polícias é uma tragédia

Os pesquisadores Bruno Paes Manso (Núcleo de Estudos da Violência da USP), Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), apontam que os números desse levantamento demonstram que a gestão da pandemia construiu um cenário trágico no país, ampliado para os profissionais da segurança pública.

De acordo com os especialistas a “gestão parecia ignorar, até menos de um mês atrás, que uma quantidade significativa de profissionais de segurança pública trabalha em contato direto com a população e está em constante risco de contaminação e, ainda, de transmitir o vírus para seus familiares e amigos. Foi somente no fim de março que tais profissionais ganharam o direito de serem vacinados. Até então, fora da lista inicial dos grupos prioritários para a vacinação do Programa Nacional de Imunização (PNI), os policiais têm tido um papel central na gestão da crise sanitária, especialmente na garantia de medidas de distanciamento social e proteção de equipamentos de saúde pública. Os números são, portanto, um alerta para que os policiais brasileiros parem de ser tratados como marionetes do jogo político, inclusive por representantes de suas próprias categorias. É preciso que os mecanismos de proteção, saúde e valorização do trabalho previstos na lei que criou o SUSP (Sistema Único de Segurança Pública) sejam efetivamente colocados em prática e não se transformem em letra morta ou normas esvaziadas” afirmam os especialistas.

Eles destacam, ainda, que “mudar a segurança pública implica em mudar a forma como governos, sociedade e polícias se relacionam entre si. A vida não pode ser menosprezada e/ou a morte banalizada.”

Pandemia alterou radicalmente a rotina do trabalho policial

O levantamento demonstra o que já era verificado na prática: com a Pandemia, a rotina do trabalho policial foi alterada de forma radical. De uma hora para outra, os profissionais tiveram que incorporar uma série de medidas de proteção ao cotidiano do seu trabalho. Utilização de máscaras, higienização de viaturas, uso do álcool gel, utilização de WhatsApp como meio complementar de comunicação, revezamento nas Delegacias, teletrabalho, medidas de distanciamento social nas delegacias, entre outras medidas, passaram a fazer parte do dia-a-dia do policial.

No entanto, como não existiu uma coordenação nacional nos protocolos da polícia, em muitos estados as medidas foram completamente insuficientes. No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, os Policiais Militares chegaram a ter que comprar equipamentos de proteção contra a Covid-19 por conta própria, além de denunciarem que o período de quarentena para contaminados estava sendo reduzido pela corporação. O Ministério Público do RJ, chegou a fazer recomendações para que as secretarias de Polícias Civil e Militar adotassem medidas para proteger os policiais durante a pandemia da Covid-19.

O Vice-presidente da UGEIRM, Fabio Castro, destaca a situação do Rio Grande do Sul, “onde a categoria atuou ativamente na garantia das medidas de contenção e distanciamento social determinadas pelo governo do estado. Isso trouxe uma sobrecarga de trabalho e uma alta exposição ao vírus, com um custo humano alto para a Instituição, tanto no número de mortos, quanto no de afastamentos, em decorrência da Covid-19”.

Mortes poderiam ter sido evitadas

Essa demora para tomada de medidas, colaborou de forma decisiva para o grande número de mortes entre os policiais. Um exemplo claro é a vacinação dos profissionais da segurança pública. Somente após uma forte pressão das entidades representativas da categoria, o Ministério da Saúde incluiu os Policiais entre as prioridades da vacinação. Muitas mortes de policiais poderiam ter sido evitadas, se o Ministério da Justiça tivesse assumido a coordenação nacional da prevenção da Covid-19 entre as forças de segurança do país.

Para o Presidente da UGEIRM, Isaac Ortiz, “é revoltante quando vemos que muitos colegas poderiam ter tido suas vidas poupadas, se houvesse uma coordenação nas ações de prevenção da Covid-19 nas polícias, nacionalmente. Não podemos naturalizar esses números apresentados. Eles são resultado de uma política completamente irresponsável e incompetente. Essas mortes tem responsáveis e autores. O caso da vacinação é exemplar, em dezembro a UGEIRM e a Cobrapol já tinham alertado para a necessidade de vacinar imediatamente os profissionais da Segurança Pública. Fomos solenemente ignorados pelo governo Bolsonaro. O resultado está aí: centenas de mortes que poderiam ter sido evitadas, se o governo realmente se importasse com a vida dos Policiais. Infelizmente, para o governo Bolsonaro, as vidas policiais não importam!”