Defeitos em armamentos da polícia gaúcha voltam à discussão

taurus_glockNa sua edição desta segunda-feira (11), o jornal Zero Hora traz uma extensa matéria sobre os defeitos registrados nas armas usadas pelos policiais brasileiros. O principal alvo da reportagem é a fabricante de armamentos Taurus, dona do monopólio de fornecimento das armas mais utilizadas pelas forças policiais brasileiras, em particular a pistola .40.

A reportagem traz uma série de denúncias de problemas enfrentados por policiais no manuseio das pistolas da Taurus. Desde armas que disparam ao serem sacadas do coldre, até pistolas que disparam ao sofrerem quedas. Os defeitos nos armamentos da Taurus não são novidade para os policiais gaúchos. Em 16 de março deste ano, o site da UGEIRM já noticiava o problema com um lote de cerca de 700 armas, da última turma de policiais, que seriam trocados pela fabricante por terem apresentado defeitos de fábrica. Além deste caso, outras queixas já tinham sido apresentadas por policiais gaúchos. A fama da fábrica Taurus é tão ruim, que originou até um site chamado “vítimasdataurus”.

E o governo Sartori/PMDB? O que tem a ver com isso?

Porém, um aspecto não é levantado na extensa reportagem: quem compra essas armas da Taurus? Os policiais não compram essas armas diretamente da empresa. A compra é efetuada pelo governo do estado, que repassa as armas aos policiais. Portanto, a responsabilidade pela qualidade dos armamentos é do governo do estado. Ele é quem deve cobrar, da fornecedora dos equipamentos, que os mesmos estejam em perfeito estado de uso. Porém, sabemos que para o jornal Zero Hora não existe interesse em questionar as relações, muitas vezes promíscuas, entre governo e fornecedores. Se o jornal realmente se interessasse, poderia ir no site do TSE e verificar para quem as empresa responsáveis pelo fornecimento de armas e munições às polícias do estado contribuíram nas últimas eleições. Se a reportagem se desse o trabalho de fazer a consulta, verificaria que o único partido gaúcho agraciado pela Taurus e a CBC (Cia. Brasileira de Cartuchos) é o PMDB. Por coincidência, o partido do governador do Estado Ivo Sartori. Ninguém pode afirmar que a não cobrança e fiscalização do fornecimento de armas para a polícia, esteja ligada às contribuições de campanha. Porém, o dever do bom jornalismo é colocar todas as informações à disposição do leitor.

Para o presidente da UGEIRM, Isaac Ortiz, “o sindicato está preocupado com a qualidade das armas utilizadas pelos policiais. É dever do governo do estado, que é o nosso empregador, garantir a qualidade do armamento que nós utilizamos em serviço. Quando o governo compra uma arma, para ser utilizada por nós, ele é o responsável pela garantia de 100% de segurança na utilização dela. Sabemos que essa fábrica, a Taurus, já se mostrou, no mínimo, relaxada quanto à qualidade dos armamentos. Mas isso só é possível, porque quem compra não cobra devidamente. Uma arma não pode ter uma margem de erro. São vidas que estão em jogo, tanto do policial, quanto da população. Um falha na arma pode significar uma vida perdida e é isso que o governo tem que entender”.

Taurus X Glock

Outro aspecto que é pouco explorado na matéria e que é importante ficar claro para entendermos os interesses em jogo, são os interesses econômicos em disputa. A principal concorrente da brasileira Taurus é a multinacional austríaca Glock. Essa empresa já manifestou o interesse em instalar, no Brasil, uma das maiores fábricas de armamentos do mundo. De acordo com plano estratégico que teria sido traçado pela gigante austríaca, esta fábrica atenderia os mercados da América Latina, África, Oriente Médio e parte da Ásia, o que inclui os filões Índia e China. Enquanto a fábrica austríaca atenderia os mercados dos Estados Unidos, Europa e Japão. Essa divisão resolveria um problema enfrentado atualmente pela Glock. As leis europeias impedem a venda de armamentos para países envolvidos em conflitos armados. Dessa forma, a fábrica brasileira ficaria responsável pelo serviço “sujo”, que é vender armamentos para ditaduras e países de uma zona cinzenta.

Porém, para a instalação desta fábrica, a empresa necessita de uma autorização do exército brasileiro. Os comandantes das forças armadas brasileiras viram aí uma oportunidade de participar do mercado internacional de armas. Com essa finalidade, fizeram uma contraproposta à Glock: a criação de uma joint venture da Glock com a estatal IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), que ficaria com a exclusividade do mercado de armas do Hemisfério Sul. Além disso, pela proposta, os austríacos fariam 100% dos investimentos, de US$ 30 milhões iniciais, mas entregariam para a Imbel 50% dos lucros. As negociações continuam em andamento, com a Glock questionando a divisão de mercado proposta pelo exército brasileiro e tentando garantir uma fatia maior para a Matriz européia.

Jogo pesado da Taurus e da Glock

No meio disso tudo, temos um outro entrave aos planos da Glock. A posição da brasileira Taurus, que possui, hoje, cerca de 30% do mercado Norte Americano de armamentos leves. Para avançar nesse mercado, seria necessário o enfraquecimento da Taurus. Por outro lado, para garantir sua posição, a Taurus contratou o General da reserva Antônio Roberto Terra como seu lobista. O general foi um dos responsáveis pela elaboração da lei que proíbe a compra de armamentos de empresas estrangeiras pelas polícias brasileiras. Ele teria a missão de convencer os militares brasileiros sobre a importância de preservar a indústria nacional no setor. Além disso, a Taurus tem uma política agressiva de financiamento de políticos para defesa dos seus interesses no Congresso Nacional e mesmo nos governos estaduais. Como podemos ver, esse não é um jogo para amadores.

Perguntas que devem ser feitas

Outra questão que tem que ser levada em conta, são os interesses envolvidos na matéria do jornal Zero Hora. Isso é importante para sabermos onde estamos pisando nessa discussão. Qual o interesse do jornal em publicar essa matéria, nesse momento? Qual fato provocou a matéria de duas páginas, em um dos espaços mais nobres do jornal? Os fatos relatados no texto aconteceram no início do ano, porque, na época, não houve nenhuma matéria denunciando a ineficiência das armas da Taurus? Porque as 700 pistolas da polícia civil que vieram com defeito, e foram trocadas pela Taurus, não mereceram nem mesmo uma nota no jornal? Quem ganha e quem perde com essa matéria? Essas são perguntas que devemos fazer ao ler a matéria do jornal. Uma boa pesquisa no Google com os nomes Globo e Glock, também podem ajudar para entendermos os interesses em jogo.

Para o vice-presidente da UGEIRM, Fabio Castro, “o importante em toda essa questão, para a UGEIRM, é garantir a segurança dos policiais. Sabemos que não existem santos no mercado de armas. A Taurus já se mostrou ineficiente na fabricação de armas. No entanto, a Glock também não é nenhuma empresa filantrópica. Os interesses envolvidos são de um mercado que movimento bilhões ao ano, vendendo armas para ditaduras e grupos armados que aterrorizam as populações de vários países. O que não podemos admitir é que, no meio disso tudo, os policiais sejam prejudicados. Por isso é importante sabermos os interesses envolvidos, inclusive do jornal Zero Hora, para podermos defender os direitos dos policiais”.