Economista estima que PIB do comércio de Porto Alegre perde R$ 71 milhões no Natal com atraso no 13º

Luís Eduardo Gomes

O Natal é o período mais esperado do ano para as crianças, que aguardam ansiosamente por seus presentes, mas também pelo comércio, que os vende. Em tempos de austeridade, contudo, os parcelamentos e adiamentos de salários e do 13º dos servidores estaduais e municipais tem causado um grande impacto no varejo de Porto Alegre. No Estado, os servidores ainda conseguiram “antecipar” os valores que deveriam ser pagos no dia 20 por meio de empréstimo. Mas, no município, os servidores só poderão começar a “antecipar” esses valores no Banrisul a partir do dia 26 (para quem é correntista do banco), mas mais provavelmente só no dia 3 – uma vez que os municipários recebem seus salários na Caixa -, quando passarão a ser ofertados empréstimos para não correntistas. A partir da metodologia da matriz insumo-produto da Fundação de Economia e Estatística (FEE) e de dados da estrutura de consumo das famílias da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o economista Cristiano Ghinis, mestre em Economia do Desenvolvimento pela PUC-RS, estima um impacto de R$ 71,6 milhões de perdas no comércio em razão do atraso no pagamento do 13º salário de servidores municipais.

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Desse montante, R$ 45,1 seriam referentes ao impacto direto, em função da redução do consumo diretamente no comércio, R$ 12,7 ao impacto indireto, em função dos efeitos sobre todos os setores fornecedores de insumos para o comércio, e R$ 13,7 milhões de efeito sobre a renda, em função da queda dos rendimentos e, por conseguinte, do consumo de todos empregados dos setores afetados. Esses valores representam uma perda de 2,4% no PIB do Comércio da Capital. Quando combinado aos demais setores da economia local – incluindo os serviços, cujas perdas são estimadas por Cristiano em 0,93% -, as perdas em razão do atraso no 13º salário chegam a R$ 231,4 milhões, sendo R$ 141,6 milhões de impacto direto – que é o valor somado do 13º dos 24,1 mil municipários, entre ativos, inativos e pensionistas -, R$ 50,1 milhões de impacto indireto e R$ 39,5 milhões de efeito na renda.

Fonte: FEE/MIP-RS 2008, atualizada com as Contas Regionais 2015

O economista destaca que as perdas geradas pelo não pagamento do 13º podem significar a estagnação das vendas no comércio de Porto Alegre em relação ao ano passado, isto num momento em que o varejo da Capital acumulava crescimento de 2,8% no ano ao fim do 3º trimestre. Ele destaca que, tradicionalmente, as vendas de dezembro são responsáveis, em média, por 56,8% do crescimento anual do comércio, o que torna a situação ainda mais complicada.

Em outubro, Cristiano já havia divulgado um estudo em que estimava que, em caso de aprovação, os projetos encaminhados pela gestão de Nelson Marchezan Júnior (PSDB) propondo alterações nos salários dos servidores municipais poderiam provocar uma redução de até R$ 1,5 bilhão no PIB da Capital e na perda de 38,8 mil postos de trabalho.

Ele destaca ainda que, após um período de recuperação do emprego, nos últimos dois meses, a Região Metropolitana registrou uma redução de 10 mil (-0,6%) no contingente de pessoas ocupadas, sendo Porto Alegre responsável por gerar a maior parte (75% em novembro) do aumento do desemprego, quando tradicionalmente a Capital tinha taxas mais baixas do que as cidades de seu entorno.

O impacto no comércio – e também no setor de serviços – na Capital por causa dos atrasos no 13º será ainda maior, visto que a cidade é casa de de 79.626 matrículas do governo do Estado, entre servidores ativos, inativos e pensionistas (segundo dados da Fazenda estadual), que somados deveriam receber aproximamente R$ 540 milhões do 13º. Segundo as contas da Fazenda, cerca de 70% dos servidores estaduais antecipam o recebimento do 13º em atraso por meio de empréstimo bancário no Banrisul. Há ainda os servidores federais, que não foram afetados – ainda – por parcelamentos

Comércio no Centro de Porto Alegre apresentava decoração discreta às vésperas do Natal em comparação com anos anteriores | Foto: Maia Rubim/Sul21

Estimativas e resultados até o momento

Uma pesquisa realizada pela Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV), divulgada em dezembro, indicava que o comércio esperava faturar R$ 6,4 bilhões com as vendas de Natal no Estado em 2017, uma alta de 5,2% em relação ao ano passado. Na ocasião, o presidente da AGV, Vilson Noer, já considerava que o parcelamento de salários dos servidores poderia ser um fator negativo, mas disse acreditar que a confiança do consumidor na economia, em recuperação, ainda que lentamente, estava ajudando o comércio a ter uma “expectativa muito boa de vendas” no Natal.

Contudo, em entrevista na última quinta-feira (21), o presidente do Sindilojas de Porto Alegre, Paulo Kruse, destacou que as vendas do Natal até então estavam no mesmo patamar do ano passado. “Esperávamos um crescimento um pouco maior”, disse.

No entanto, Kruse dizia ainda confiar na recuperação das vendas entre os dias 20 e 25, quando, segundo ele, tradicionalmente ocorrem 35% das vendas de todo o mês de dezembro. No dia 20, já teria sido percebido um ganho em relação a 2016 e a expectativa é de que a véspera do Natal caindo em um sábado seria um fator positivo para o comércio da Capital.

Segundo Kruse, a expectativa era de crescimento de 6% em relação ao ano anterior – 2,82% em valores nominais -, indíces que ele acredita que ainda podem ser alcançados, ainda que admita tratar-se de expectativa otimista. Contudo, mesmo que esses indíces sejam alcançados, ele destaca que, quando o comércio fez as compras de estoques para o Natal, o que geralmente ocorre entre agosto e setembro, a expectativa de crescimento era 8%, o que dificilmente será alcançado. “A gente só espera que o ano de 2018 seja melhor”, diz.

Para o presidente do Sindilojas, uma das explicações para o resultado passa sim pelos parcelamentos de salário dos servidores estaduais e municipais, situação que gera insegurança para os trabalhadores. “Percebemos que as vendas através do Banricompras, que é um cartão muito usado, especialmente por funcionários públicos, e que tem taxas muito competitivas, tiveram queda, especialmente na venda a prazo”, destacou.