Em novembro, RS tem aumento de 115% nos casos de estelionato

Foram 5.539 registros, média de 184 por dia, contra 85 no mesmo período do ano passado. Estado concentra investigações para combater organizações envolvidas neste tipo de crime.

Leticia Mendes / GauchaZH

O penúltimo mês de 2020 também apresentou aumento nos estelionatos no Rio Grande do Sul, assim como vem ocorrendo ao longo de todo ano. Em novembro, houve elevação de 115,2% nos golpes comunicados à polícia. Foram 5.539 registros, o que resulta em uma média de 184 por dia — no mesmo período do ano passado, foram 2.573, e a média era de 85 por dia. Neste cenário, a Polícia Civil decidiu concentrar as investigações voltadas a combater organizações criminosas envolvidas nesse tipo de delito.

Desde o início deste mês, a delegacia do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) especializada em apurar crimes informáticos passou a concentrar fraudes nas quais se identifique a participação de grupos organizados, ainda que não tenha acontecido pela internet. Passaram a ser competência da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Informáticos e de Defraudações os estelionatos e fraudes, de alta complexidade e lesividade financeira.

Subchefe da Polícia Civil, o delegado Fábio Motta Lopes diz que a medida é uma forma de atacar os criminosos que estão por trás de série de golpes.

 — Muitas fraudes são aplicadas com uso de tecnologia, da internet. É um assunto que está muito atrelado com a questão do crime informático. E nossa decisão foi dar para esta delegacia especializada em combater crimes cibernéticos atribuição para investigar outros estelionatos. Serão apuradas também as grandes fraudes, que causam prejuízo considerável, para empresas ou pessoas, nas quais haja uma organização criminosa por trás  — explica.

Na prática, as demais delegacias continuam investigando estelionatos. Mas nos casos em que se constatar essa atuação de um grupo, envolvido em sequência de golpes, por exemplo, que causem prejuízos a várias pessoas ou em diversos municípios, a apuração será concentrada nesta delegacia. A estratégia é semelhante à que vem sendo aplicada no roubo de veículos em Porto Alegre.

—  A informação não fica pulverizada, fica centralizada num único órgão, que sabe quem são os estelionatários, de qual organização fazem parte. Quando se especializa a investigação, há melhoria na resolução — afirma o delegado.

O subchefe acredita que alguns fatores por trás do aumento dos golpes são o maior uso da internet neste período de distanciamento, o lucro fácil (dos criminosos) e a possibilidade de o crime ser cometido mesmo de dentro das cadeias, com uso de celulares, por exemplo. Segundo o policial, como é um crime patrimonial e sem violência ou grave ameaça, os estelionatários permanecem presos períodos curtos.

— Quando se consegue prender, continua praticando. Por isso, essa mudança de foco, de tentar investigar não só pelo estelionato, mas também por organização criminosa que atua com fraude — detalha.

Jovem à procura de emprego perdeu R$ 800 

Outro fator que a polícia considera essencial é orientar as vítimas, já que muitas vezes são atraídas por promessas de recompensas ou mesmo por valores abaixo do mercado. Foi o que aconteceu com uma moradora de Porto Alegre, de 24 anos, formada em psicologia. Em busca de emprego, decidiu divulgar seu trabalho nas redes sociais. Para ter vídeos com mais qualidade, queria comprar um smartphone. Acabou vítima de golpe.

— Estou desempregada. Ia tentar iniciar pela segunda vez meu Instagram para auxiliar no meu trabalho, para que as pessoas me conhecessem. Nunca achei que cairia num golpe assim, mas cai. Todas as pessoas estão vulneráveis a isso — diz a jovem, que preferiu não ser identificada na reportagem.

A compra foi feita a partir de uma página no Instagram que oferecia um smartphone por R$ 700 – nos outros locais, ela havia encontrado o mesmo celular usado por R$ 1,9 mil a R$ 2,3 mil. O vendedor alegava que o item havia ficado exposto (vitrine) e, por isso, tinha preço mais baixo. Ela pesquisou sobre a loja, verificou o CNPJ, conferiu se fechava com o endereço indicado, entrou em contato e pediu mais fotos do smartphone. Após tudo, isso, pensou que era confiável. Pagou R$ 800 no cartão. Após o pagamento, os problemas começaram. Ela passou a insistir pela nota fiscal e o código de rastreio, mas o vendedor desconversava.

— Simplesmente me bloquearam e minha ficha caiu: eu tinha sofrido um golpe — recorda.

No perfil, havia depoimentos de supostos compradores, que agora ela acredita serem falsos – os mesmos vídeos são usados por outras contas. Suspeita também que o nome da loja, com quem não conseguiu contato, tenha sido usado pelos estelionatários. Ela registrou o caso na Polícia Civil. Mas o episódio a abalou e fez com que ela abandonasse a ideia de montar o perfil.

— Fiquei extremamente chateada. Com a pandemia, o emprego já tem sido difícil, eu ia tentar o Instagram pela segunda vez com outra temática, tinha algumas ideias. Para fazer a compra, desisti de fazer um curso. Me senti tão frustrada, estressada, não consegui mais ter motivação para continuar — descreve.

Aplicativo para se proteger  

Em novembro, outra iniciativa da Polícia Civil foi o lançamento de um aplicativo para alertar a população sobre os principais golpes. Nele, estão informações sobre as 15 trapaças mais comuns, formas de se proteger e como buscar a ajuda da polícia. O app PC Alerta! está disponível no Play Store (sistema Android).

Quem quiser conferir o aplicativo pela versão web pode acessar o site. O app traz ainda um link direto para o site da Delegacia Online, onde é possível fazer denúncias, ou o próprio registro de ocorrência envolvendo esses golpes, ou mesmo outros delitos. Em junho, já havia sido lançada uma cartilha com orientações.

Como se proteger de alguns golpes   

  • Golpistas, em geral, oferecem vantagens para atrair a vítima e têm pressa para obter lucro. Fique atento a isso   
  • Na hora de comprar algo pela internet, desconfie se o site só aceitar pagamento por boleto ou transferência, se tiver falhas ou erros na página e se o único contato for por WhatsApp. 
  • Certifique-se de que a pessoa com quem você está conversando, por WhatsApp por exemplo, é ela mesma. Para isso, uma dica é telefonar para a pessoa  
  • Desconfie de ligações de desconhecidos e nunca repasse informações pessoais   
  • Durante a venda de item, só entregue o produto após o dinheiro entrar na conta ou receber o valor. Não confie em comprovantes de transferência porque eles podem ser falsificados   
  • Se tiver um familiar idoso, oriente a pessoa sobre os golpes mais comuns e como se prevenir deles   
  • Caso seja vítima, registre a ocorrência. É possível utilizar a Delegacia Online   

Fonte: Polícia Civil do RS.