Em ‘Rifle’, Davi Pretto pensa o Brasil a partir da desolação do pampa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 06h01

No Festival de Brasília do ano passado, Rifle ganhou dois prêmios do júri oficial – melhor som e roteiro, esse, dividido entre o diretor Davi Pretto e o autor do conto original, aliás, nunca publicado, El Niño. Pretto e Richard Tavares, o escritor, são amigos de infância – “desde guris” – e o filme deveria ter sido o primeiro da dupla, anos atrás. “Mas aí eu terminei fazendo antes o Castanha, e Rifle ficou ali, não parado, mas em compasso de espera, a gente sempre conversando.” Castanha esteve longe da unanimidade, mas foi – é – um marco do cinema no Rio Grande.

O protagonista, João Carlos Castanha, de 52 anos, é ator. Trabalha na noite como transformista. Circula num universo um tanto alternativo (underground?). Solitário, aos poucos deixa de discernir as fronteiras entre realidade e ficção, que se borram no seu imaginário. Pretto sorri quando o repórter lhe diz, “com todo respeito”, que tem cara e jeito de mauricinho. Na verdade, sua formação foi com o irmão mais velho na cena musical punk de Porto Alegre. A mãe – solteira, bancária – deu aos filhos uma formação de esquerda, que se reflete no cinema que Davi faz. Rifle já nasceu diferente.

“A história é desse guri na região da fronteira. Reflete o que está ocorrendo no Rio Grande e no Brasil. Os grandes proprietários avançam sobre as terras dos pequenos, que perdem seu território e vão viver uma vida de m… na periferia das cidades. Dione, o nosso protagonista, pega em armas. O rifle vira metáfora, expressão da sua revolta.” O filme mantém a estrutura do conto, mas muda o final. E Pretto tomou uma decisão ousada, senão radical. “Já que o filme conta a história de uma família, decidi filmar com uma família de verdade.” A paisagem, uma área de fronteira, é decisiva. Vira personagem. “Percorremos, minha produtora e eu, toda aquela região fronteiriça, procurando a paisagem e os personagens.”