Encontro da UGEIRM discute as mulheres na polícia

A luta das mulheres policiais remonta ao ingresso das primeiras colegas na carreira policial, que aconteceu em 1970, com a formação das primeiras 42 investigadoras de polícia. Apesar desse ingresso, a estrutura da Polícia Civil teve poucas transformações para incorporar as mulheres em seu quadro funcional. A hierarquia e a estrutura continuaram basicamente masculinas.

Essa é a realidade das mulheres na Polícia Civil. Apesar de ocuparem cada vez mais espaços, têm que se mover em um espaço essencialmente masculino. Questões que na aparência seriam simples e óbvias, como a terminologia dos cargos no feminino ou, mais importante, a retirada das mulheres grávidas das atividades de risco e dos plantões, levaram mais de 40 anos para serem implementadas, e ainda mostram-se muito frágeis.

Essas e outras conquistas só foram possíveis graças à organização das próprias mulheres, a partir da criação da Diretoria de Gênero na Ugeirm Sindicato. No ano 2013 foi realizado na cidade de Santa Maria o 1º Encontro de Mulheres Policiais, que discutiu a necessidade do reconhecimento do direito à aposentadoria diferenciada, garantida pela Constituição Federal de 1988 a todas as mulheres, mas ignorada pela Polícia Civil.

foto_mulheres6Ainda assim, a luta está longe de ter se esgotado. Uma pesquisa realizada no ano 2015, As Mulheres nas Instituições Policiais, pela Fundação Getúlio Vargas, (clique aqui para acessar a pesquisa), trouxe à tona a discriminação sofrida cotidianamente pelas policiais, solidificando a consciência sobre a importância do fortalecimento da organização feminina na luta sindical, para suas demandas sejam conhecidas e pautadas.

Com o tema “Vamos Falar Sobre Nós”, no dia 1º de julho deste ano, foi realizada uma tarde de discussões na sede do sindicato, uma ideia surgida a partir da sugestão de diversas colegas e coordenada por Neiva Carla, Lisiane Paganotto e Stèphannie Weydt.

“A escolha do tema não foi gratuita. A avaliação é de que é essencial que falemos sobre nós mesmas, olhemos para nós mesmas, para nos conhecermos, pois sempre que se fala em mulher na Polícia, refere-se ao atendimento das mulheres de fora da instituição, ignorando que nós, as policiais, também somos mulheres. Permanecemos invisíveis e a discriminação institucional é naturalizada”, explicou Neiva, que também é Diretora de Gênero da Ugeirm Sindicato.

A experiência de estar entre mulheres e falar sobre as questões cotidianas que envolvem ser uma mulher policial em uma instituição construída e dirigida por homens foi extremamente enriquecedora. A partir dos relatos, foi possível construir um grau de pertencimento que é fundamental na construção da organização. Na discussão ficou claro que, apesar da aparência de igualdade entre os gêneros, ainda é muito desigual o papel reservado para as mulheres na Polícia. A presença de colegas de turmas diferentes (de 1971 a 2015) possibilitou a percepção de que, apesar do ingresso cada vez maior de mulheres, a situação mudou muito pouco ao longo dos anos. Por exemplo, as mulheres, para obterem reconhecimento, continuam tendo que provar a sua capacidade “apesar de ser mulher”.

Sônia Aparecida Araújo Moreira, que já foi Diretora de Gênero da Ugeirm Sindicato, esteve presente no encontro e relatou os obstáculos encontrados na luta feminina, lamentando que muito pouco tenha sido alcançado até então e enfatizando a importância de seguir lutando para alcançar novas conquistas.

O debate só foi possível a partir da criação de um espaço em que as mulheres se sentiram à vontade para falar sem o medo do julgamento ou a necessidade de provar sua capacidade. Essa experiência possibilitou reconhecer-se na fala das outras colegas, enxergando as semelhanças entre todas as experiências e realidades, independentemente do tempo dentro da Instituição ou da cidade de lotação. Os laços foram fortalecidos e foi dado mais um importante passo para a organização feminina e o combate à discriminação.

Ao final do Encontro foi decidido realizar encontros nos mesmos moldes em cidades do interior e construir um Seminário, com data prevista para novembro de deste ano, com o intuito de dar prosseguimento à organização das mulheres policiais.