Estamos dando pessoas de bandeja para o vírus infectar, afirma reitor da UFPel

Coordenador da maior pesquisa nacional sobre a covid-19, Pedro Hallal defende 15 dias de isolamento total da população

Gilson Camargo Extra Classe | Porto Alegre | 17 de Junho de 2020

O reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador da pesquisa Epicovid, que mapeia a velocidade de contágio e propõe estratégias para o enfrentamento da doença, destaca que a curva de contágio já deveria ter entrado em declínio, pois já se passaram 17 semanas desde o registro do primeiro caso.

Mas não é o que a realidade revela. O número de infectados e de mortes se multiplica a cada dia e projeta o colapso do sistema de saúde ainda em junho.

Até às 8h desta terça-feira, 16, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa (G1, O Globo, Extra, Estadão, Folha e UOL) que passou a fazer a atualização diária das informações enviadas pelas secretarias estaduais de saúde diante da omissão de informações pelo Ministério da Saúde, o total de mortes atingiu 44.148 e quase 900 mil infectados.

“A solução neste momento é fechar as portas do país por 15 dias para forçar a curva a entrar em uma trajetória descendente”, aponta Pedro Hallal.

O reitor disse que levará essa proposta de estratégia extrema de controle ao Ministério da Saúde, em uma reunião na próxima quinta-feira, 18.

Fase aguda de contágio

Em entrevista ao jornal Diário Popular, de Pelotas, nesta terça, Hallal afirmou que o governo vem optando por uma política kamikaze no enfrentamento da pandemia e, caso não adote medidas efetivas contra a covid-19, “empurra o pico para cima”, prolongando a fase aguda do contágio por um prazo indefinido. “O Brasil resolveu desafiar o vírus”, alerta Hallal.

Em países como Espanha, Itália e Estados Unidos, após entrar em declínio, o vírus entrou em um período de saturação e a curva de transmissão não voltou a subir. A tendência mundial, segundo o reitor, é de recuo do contágio a partir da 13ª semana de circulação desde que sejam adotadas medidas de confinamento da população.

“Não foi o que ocorreu no Brasil e está longe de acontecer. E por quê? Por aqui, no momento em que o cerco deveria ter ficado ainda mais apertado – em função de o contágio estar em alta –, os governos passaram a flexibilizar e cada vez menos pessoas mantêm o isolamento social”, explica. O Brasil “alimenta uma equação desastrosa”, segundo ele, em que há mais pessoas contaminadas enquanto cresce o número de suscetíveis ao contágio nas ruas.

Esse cenário, adverte, é favorável a surtos de infecção fora de controle. “O Brasil tem um monte de infectados e um monte de suscetíveis e os está colocando para se encontrar no meio da rua”, compara. “A gente tá dando pessoas de bandeja pro vírus infectar. É isso”. Daí a sua aposta em 15 dias de isolamento total (lockdown).

Proporção de infectados aumentou em 53% em duas semanas


A pesquisa Epicovid19-BR fará 33.250 testes rápidos e entrevistas em 133 cidades de todos os estados / Daniela Xu/ UFPel

A pesquisa Epicovid19-BR, que estima a proporção de casos de infecção por coronavírus no Brasil, inicia nova etapa a partir de domingo, 21, com a meta de realizar 33.250 testes rápidos e entrevistas em 133 cidades de todos os estados do país.

Cerca de 2,6 mil pesquisadores do Ibope Inteligência vão às ruas, nos dias 21, 22 e 23 de junho, para visitar residências e convidar 250 moradores a realizar testes rápidos para o coronavírus em cada uma das cidades incluídas na pesquisa.

“É fundamental que a população aceite participar da pesquisa”, diz a epidemiologista Mariângela Freitas da Silveira, integrante da coordenação do estudo. Em cada cidade, por exemplo, é preciso realizar pelo menos duzentos testes, para que possamos apresentar estimativas sobre a real dimensão da covid-19. “Além de contribuir com o esforço coletivo de enfrentamento da pandemia, o participante tem a oportunidade de realizar o exame e saber o resultado na hora”, observa.

Velocidade e expansão

Para cada diagnóstico confirmado, existem cerca de seis casos reais não notificados na população, o que representa mais de 1,7 milhão que têm ou já tiveram o coronavírus / Tomaz Silva/Agência Brasil

O Estudo de Prevalência da Infecção por covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR), coordenado pela UFPel com financiamento do Ministério da Saúde, é o maior levantamento populacional do mundo a estimar a prevalência de covid-19. A segunda etapa da pesquisa apresentou evidências inéditas sobre a velocidade de expansão do coronavírus em 83 cidades do país.

A proporção de pessoas que já contraíram o vírus no Brasil aumentou em 53% no período de duas semanas entre a primeira etapa, realizada de 19 a 21 de maio, e a segunda, de 4 a 5 de junho. Os dados mais recentes também mostram que, para cada diagnóstico confirmado, existem ao redor de seis casos reais não notificados na população.

Para se ter uma ideia, as estimativas somam mais de 1,7 milhão de pessoas que têm ou já tiveram o coronavírus, contra o total de 296.305 casos notificados em 120 cidades brasileiras na véspera do segundo levantamento da pesquisa.

O estudo inclui a cidade mais populosa de cada uma das 133 sub-regiões definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge) para o território brasileiro. A seleção das residências e das pessoas que serão entrevistadas e testadas ocorre por meio de um sorteio aleatório, utilizando os setores censitários do Ibge como base.

Para o exame, os pesquisadores coletam uma gota de sangue da ponta do dedo do participante, que será analisada pelo aparelho de teste em aproximadamente 15 minutos.

Enquanto aguarda o resultado, o participante responde a perguntas sobre sintomas da covid-19 nas últimas semanas, busca por assistência médica e rotina em relação às medidas de prevenção e isolamento social. Em caso de resultado positivo, os profissionais comunicam a Vigilância Epidemiológica local

Edição: Extra Classe