Incêndio que atingiu galpão da Cinemateca Brasileira é controlado

Local abriga parte do acervo da instituição, constituído de mais de 100 anos de história do maior acervo audiovisual da América Latina.


RBA

Um incêndio atingiu o galpão da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, no início da noite desta quinta-feira (29). O local abriga parte do acervo da instituição, constituído de mais de 100 anos de história do maior acervo audiovisual da América Latina, em cerca de 250 mil rolos de filmes. Segundo o comandante do operação do Corpo de Bombeiros, a intensidade das chamas e a densidade da fumaça indicava a presença de materiais altamente inflamáveis. Onze viaturas foram enviadas. O incêndio foi controlado por volta das 19h.

O Corpo de Bombeiros estima que cerca de 400 metros quadrados do galpão foram tomados pelas chamas. Ainda não é possível saber o que foi queimado e o que se salvou. O prédio parcialmente queimado não é a sede principal da Cinemateca, que fica na Vila Clementino, na zona sul da capital paulista. Porém, o depósito abriga parte importante do acervo, em cópias para exibição, não os rolos originais, que ficam em outro local.

Segundo a Folha de S.Paulo, ali também ficam guardados o acervo da Programadora Brasil – iniciativa do antigo Ministério da Cultura para exibição de conteúdo em circuitos não comerciais. Além desses itens, equipamentos museológicos, como projetores antigos, e documentos, incluindo quatro toneladas de arquivos sobre políticas públicas para o audiovisual, recentemente transferidas do Rio de Janeiro também estavam acondicionadas no galpão. Os arquivos ainda incluem documentações da Embrafilme, do Instituto Nacional do Cinema e do Conselho Nacional do Cinema.​

Em julho de 2020, o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) moveu ação na Justiça contra a União por abandono da Cinemateca. A promotoria questionou a falta de contrato para gestão da instituição e destaca problemas como risco de incêndio, falta de vigilância, atrasos nas contas de água e luz, e de salários. Em agosto passado, o desmonte e fragilização da instituição pelo governo Bolsonaro avançou, com o anúncio de demissões do pessoal técnico da instituição.

No entanto, em maio último, o MPF-SP suspendeu a ação contra a União depois que o governo federal se comprometeu a mostrar as ações implementadas pela preservação do patrimônio no prazo de até 45 dias, o que ainda não ocorreu. Os cuidados de manutenção e preservação do acervo são feitos por mão de obra altamente especializada. Em sucessivas reportagens, a RBA alertava que, sem corpo técnico capacitado, toda a memória nacional ali guardada corria sério risco de desaparecer.

O local já foi atingido por incêndio em 2016. Na ocasião, cerca de 500 obras foram destruídas. No ano passado, um temporal alagou o galpão e parte do acervo foi, novamente, comprometido.Ataques

O espaço, que já foi considerado a quinta cinemateca do mundo, é o primeiro lugar de contato com o cinema para muitas crianças das escolas públicas. Nele também está, entre outros tesouros da cultura nacional, todo o acervo de cartas, filmes e roteiros do cineasta baiano Glauber Rocha. São 44 mil títulos de obras cinematográficas, entre curtas, médias e longas-metragens. O acervo guarda gravações de décadas de programas da televisão brasileira, registros de jogos de futebol (o Canal 100) e filmes publicitários.

O governo Bolsonaro deu os primeiros sinais de que planejava o desmonte da instituição e demonstrou desprezo pelo seu acervo no fim de 2019. Na ocasião, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, decidiu romper, unilateralmente, o contrato da instituição com a fundação Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que administrava a Cinemateca. Para justificar o rompimento, usou argumentos inconsistentes como “combate à doutrinação e ao marxismo cultural”, entre outros. O ex-ministro chegou a expulsar trabalhadores da Acerp da sede do ministério.

Já em maio do ano passado, novos sinais de abandono. Após três meses de gestão desastrosa e sucessivos episódios de incompetência e choque com todo os setores de produção cultural do país, a então secretária especial da Cultura, a atriz Regina Duarte, foi demitida. Como compensação, o presidente lhe prometeu a direção da Cinemateca, mas a troca não se concretizou.

Em junho seguinte, os trabalhadores da Cinemateca fizeram uma paralisação de 24 para chamar a atenção da sociedade. Apesar da pandemia, então chegando ao auge da chamada primeira onda, eles tiveram de lidar com atrasos nos salários, deterioração das condições de trabalho e constante ameaça de demissões. Mas, principalmente, alertavam que a falta de política de preservação e manutenção colocava em risco todo o acervo da instituição e a história do audiovisual brasileiro.

Ao fim daquele mês, a empresa terceirizada contratada para a manutenção dos climatizadores necessários para a conservação dos filmes deixou de prestar serviço e a brigada de incêndios debandou.

Em julho, ao completar sete meses consecutivos sem que a administradora da Cinemateca recebesse um único centavo de recursos do governo federal, trabalhadores, artistas e pesquisadores fizeram um “abraçaço” simbólico em torno da sede. “Para manter a sobrevivência dessas imagens, a Cinemateca precisa de seus funcionários, precisa da energia elétrica para manter os negativos, os nitratos, que entram em combustão muito rápido”, alertava a cineasta Tata Amaral.Ação

Após a mobilização dos trabalhadores, o Ministério Público Federal (MPF) e a prefeitura de São Paulo resolveram entrar na luta para recuperar e manter o espaço. O MPF entrou com uma ação contra a União pelo abandono da Cinemateca, exigindo cuidados emergenciais. A prefeitura e a Câmara de São Paulo intervieram e verbas emergenciais foram repassadas, como doação, para a Cinemateca pagar despesas básicas.

A ação desagradou o governo federal. Foi quando entrou em cena o substituto de Regina Duarte e atual secretário Especial de Cultura, o ex-ator Mário Frias. Ele antecipou que iria até mesmo tomar as chaves da sede da Cinemateca Brasileira e manteve a negativa de repassar verbas para a instituição. Além disso, anunciou que o acervo seria todo transferido de São Paulo para Brasília. Em nova mobilização, trabalhadores e representantes do setor denunciaram o risco de aparelhamento da instituição.

Alertado de que estava prestes a decretar uma medida ilegal, o governo recuou da transferência mas, em agosto, tomou o controle definitivo da Cinemateca. Em uma ação ostensiva e intimidatória, um emissário de Frias, acompanhado de integrantes da Polícia Federal e da Guarda Civil Metropolitana fortemente armados, comandou operação de intervenção. Com isso, retirou o controle da instituição da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que ainda administrava o patrimônio, apesar de, àquela altura, chegar a oito meses sem receber os repasses contratados.

Dias depois, foram anunciadas as demissões de todo o pessoal técnico. “A Cinemateca é a principal instituição de preservação da memória do cinema brasileiro. Todos os 41 funcionários foram demitidos! São técnicos altamente especializados em preservação que trabalhavam lá há décadas. Bolsonaro quer um país sem memória, sem cultura, sem educação”, denunciou a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA).

Em abril deste ano, representantes dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira voltaram a se mobilizar e divulgaram carta denunciando mais uma vez a má gestão do espaço. Eles reafirmaram o alerta de que o maior acervo audiovisual da América Latina corria riscos cada vez mais reais. Após sucessivas investidas do governo do presidente Jair Bolsonaro contra a instituição, aumentando ainda mais a iminência de uma tragédia, o incêndio de hoje confirma o descaso e o projeto de destruição da instituição.