‘Mulher do Pai’ foge do didatismo que empobrece filmes brasileiros

Direção de Cristiane Oliveira, com Maria Galant e Marat Descartes. Vitrine Filmes, 14 anos. Drama.

Salas em exibição:

Espaço Itaú de Cinema Porto Alegre
(Avenida Túlio de Rose 80 – Passo da Areia 91340-110 Porto Alegre)
Horários: 16h e 20h

GNC Moinhos
(Rua Olavo Barreto Viana 36 – Moinhos de Vento 90570-070 Porto Alegre)
Horários: 18h e 20h

Sala Eduardo Hirtz da Casa de Cultura Mário Quintana
Horários: 15h15min e 19h

veja abaixo a crítica do filme por Andrea Ormond para a Folha de S. Paulo

‘Mulher do Pai’ foge do didatismo que empobrece filmes brasileiros

“Mulher do Pai”, primeiro longa-metragem de Cristiane Oliveira, poderia ser mais uma história sobre conflitos adolescentes. O cinema brasileiro sempre foi profícuo no tema, desde “Marcelo Zona Sul” (1970), de Xavier de Oliveira, passando por “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky (2010).

Mas o filme está repleto de surpresas: a protagonista Nalu (Maria Galant) mora perto da fronteira do Brasil com o Uruguai. Seu pai (Marat Descartes) é cego, resmunga pelos cantos. Nalu cobiça um futuro que nem sabe qual será. Acima de tudo, é responsável por cuidar do pai. Quem sabe, amá-lo.

Explorar a vida na fronteira é algo que nosso cinema tenta aprender há muito tempo. Se Carlos Hugo Christensen juntou forças a Astor Piazzolla e Jorge Luis Borges para criar “A Intrusa” (1979) –saga dos irmãos Nilsen em Uruguaiana, cruzamento entre Brasil e Argentina–, no filme de Cristiane Oliveira o olhar à “outra margem” soa menos preciso e mais reverente.

As personagens parecem sofrer de uma espécie de etnocentrismo invertido em relação ao Uruguai, de onde chegam pessoas e novidades, próximas e vivas.

Montevidéu é apresentada como território idealizado pela professora uruguaia, Rosario (Verónica Perrotta), com quem Nalu mantém relacionamento ambíguo, metáfora das expectativas projetadas no país vizinho.

Curiosamente, assim como em “A Intrusa”, a casa em que vivem também se revela personagem, fagulha do tempo, aprisionando quem chegar perto, como se estivesse acima de todo o destino.

“Mulher do Pai” trabalha –muito bem, por sinal– com questões delicadas. Um deslize e as boas intenções cairiam no abismo da irrelevância. Os elementos “regionais” encontram-se misturados a uma universalidade capaz de jogar a trama em qualquer outro lugar do planeta.

Ainda assim, temos gostos próprios do cinema gaúcho. A atriz Amélia Bittencourt, intérprete da avó de Nalu, participou de “Coração de Luto” (1967): o clássico que tremulou lenços brancos, empapados com as lágrimas do cantor Teixeirinha.

Repleto de coisas não ditas, imenso de silêncios, o trabalho de Cristiane Oliveira é expressão de sentidos sem pistas fáceis, sem a necessidade do didatismo que empobrece grande parte dos filmes brasileiros atuais.

Não cair na tentação da chanchada sociológica representa um começo promissor, e podemos dizer que a diretora e roteirista conseguiu driblar a medusa.

Veja o trailler do filme: