Na linha de frente da covid: ‘Somos acostumados a ver gente morrer, mas não como agora’

Luís Eduardo Gomes

O Rio Grande do Sul enfrenta neste início de março o período mais trágico da pandemia de coronavírus. Diversos hospitais de Porto Alegre estão com todos os leitos de UTI ocupados e a fila de pacientes à espera de internação não para de crescer. As Unidades de Pronto Atendimento também estão superlotadas e os depoimentos dos profissionais de saúde são de adoecimento e angústia. Neste grave momento, o Sul21 publica relatos de quem atua na linha de frente sobre como está sendo trabalhar nestas condições.

Enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Moacyr Scliar, na zona norte de Porto Alegre, Claudia Stein relata que nunca viu algo parecido em sua carreira. “A situação é critica, os pacientes estão chegando em situação bem pior do que todo tempo anterior. Estamos com a unidade superlotada, estamos exaustos. Em todos os anos de trabalho na UPA, nunca tinha visto a unidade fechar e precisamos fechar”, diz.

Após se tornar ela mesma paciente de covid-19 em novembro passado, Claudia foi deslocada para a classificação de risco de pacientes com outras doenças. Esse é um dos motivos pelos quais as unidades estão registrando falta de pessoal, o que para ela é o principal problema do esgotamento do sistema.

“Estou vendo o esgotamento dos recursos humanos. Montar um leito de UTI é fácil, uma cama, um respirador e monitores, mas precisa de médico pra intubar e manejar as medicações, precisa de enfermeiros e técnicos pra fazer todo o complicado manejo de um paciente grave. E o material humano é finito, estamos cansados, estamos doentes de covid ou psicologicamente abalados. Somos acostumados a ver gente morrer, mas não como agora, gente jovem, alguns sem comorbidades, pessoas que sabem que vão ser intubadas e que a probabilidade de sair do tubo é pouca”.

Claudia Stein relata que a equipe da UPA ficou ainda mais abalada após a perda de uma colega no último dia do ano de 2020. “Tivemos perda entre nós e isso nos abala profundamente. A enfermeira Eva Julia de Oliveira lutou contra a covid na linha de frente todo 2020 e em novembro adoeceu e lutou 40 dias na UTI, falecendo no dia 31/12. Com a morte dela a equipe toda da UPA ficou abalada”.