Tarantino se reinventa, coloca um pé na melancolia, mas segue irônico

Diretor faz uma reflexão profunda sobre as transformações na indústria cinematográfica e na ética social de uma época

O outrora glorioso cinema dos anos 1950 está fechado num quarto fétido, quase completamente cego, dorme a maior parte do tempo, é despertado eventualmente (para desfrutar de um prazer efêmero que não consegue definir que forma tem nem de onde vem) e seus velhos e amplos estúdios não têm mais serventia (viraram morada de homeless que ganham uns trocados fazendo passeios turísticos em cavalos de faroeste pelas antigas locações). Desconfiamos até que o antigo cinema seja refém de um bando de ascetas da nova e descerebrada geração de jovens.

O destino desse “antigo cinema” acima descrito está encarnado num personagem, George Spahn (Bruce Dern), um ex-produtor de westerns que aguarda a morte deitado em um muquifo, cercado por uma seita hippie. É a metáfora mais explícita e dolorosa do novo filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood), que estreia neste dia 15 de agosto. Mas são tantas as alegorias sobre a obsolescência e os capitais simbólicos em transição – de uma era industrial a outra – que o filme de Tarantino se amolda perfeitamente à realidade atual, ao vexatório processo de substituição de um mundo produtivo pelo seguinte.

Cliff (Brad Pitt)  é o faz-tudo do decadente ator de westerns Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), personagens radiografados por Tarantino/Foto: Sony Pictures Entertaniment

Apesar de melancólico, o novo Tarantino continua sabendo rir de si mesmo. Neste ponto, é fundamental a atuação magnífica de Leonardo DiCaprio como o ator Rick Dalton, um papel autorreferente: ex-galã em decadência, inseguro e sem formação alguma, canastrão sedentário tentando demonstrar que ainda pode ser eficiente na indústria em transformação. Dalton é acompanhado por uma “sombra”, o dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que é uma espécie de mordomo e confidente: além de não deixar seu astro entrar em depressão, conserta a pia, apara a grama e dirige zelosamente seu Cadillac DeVille 1966.

É o ano de 1969, e Tarantino não economiza em gastos para reinstaurar a atmosfera de época – chegou a alugar 2 mil carros vintage para reconstituir o clima, incluindo um Ford Galaxie igual ao que a gangue de Charles Manson (Damon Herriman) usava e um MG TD 1962 conversível pilotado por Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Sharon Tate (Margot Robbie). Al Pacino, como o agente de atores Marvin Schwarzs, encarna o empresário realista de diagnósticos aterradores e de didática rápida e fulminante.

O epicentro da trama é pantanoso: em 9 de agosto de 1969, a glamourosa atriz Sharon Tate, casada com o diretor de O Bebê de Rosemary, Roman Polanski, e alguns amigos que a visitavam em sua casa foram assassinados por uma gangue de “alternativos” liderada pelo psicopata Charles Manson. Esse fato abalou a era hippie, tingiu com cores diabólicas o espírito de Paz & Amor da geração Flower Power e instaurou novamente o cinismo como a grande moeda de troca do planeta.

Como em algum romance de David Goodis ou Elmore James, o filme vai se construindo em torno dessa expectativa, a do bárbaro assassinato. Acusado de misoginia por sua postura em relação à atriz Uma Thurman, estrela de seus filmes Pulp Fiction e Kill Bill (e também por ter admitido que sabia do comportamento abusivo de seu ex-produtor Harvey Weinstein contra atrizes, e nada fez a respeito), Tarantino parece ter buscado uma espécie de redenção neste novo trabalho. É reservado às mulheres um papel de efetivo protagonismo, e ele até mesmo revisa a História.

Sharon Tate (Margot Robbie), seu assassino Charles Manson (Damon Harriman), a menina aliciada por uma seita (Margaret Qualley) e o produtor George (Bruce Dern)/Foto: Valery HACHE / AFP)

Alguns críticos já estão chamando de “o melhor filme de Tarantino”. A defesa desse ponto de vista é interessante: é bom porque seria um filme maior do que o próprio Tarantino. Mas isso também é enganoso, já que todos os elementos da féerie tarantiniana estão presentes: o morticínio de filme B, a revisão histórica, a esculhambação de heróis consagrados (Bruce Lee vira um pateta em suas mãos), o elogio dos arquétipos do cinema de ação de moral binária. Já no título Tarantino não deixa margem a dúvidas: celebra, de cara, dois western spaghetti do italiano Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste e Era Uma Vez na América. Nesses dois filmes épicos, Leone examinou o avanço inexorável do progresso em cima dos paradigmas do passado, da moral da força bruta.

A metáfora do cinema em ruínas não é a única de Era Uma Vez em Hollywood. Quando a gangue de Charles Manson se dirige ao destino da chacina, ainda não parece ter uma motivação simbólica senão a ordem expressa do seu chefe de matar todos os que encontrar pela frente. É aí que uma das garotas hippies parece ter uma iluminação. “Aqui moram esses atores ricos dos filmes que ensinaram a gente a matar no cinema. Vamos mostrar a eles que aprendemos”, diz a moça. Esse pretexto idiota de revanchismo é usado por Tarantino como se estivesse desabafando sobre as críticas acerca da hiperviolência em seus filmes, mostrando ao espectador a fronteira entre o simbólico e o real. “Eu amo aquilo. Você sabe, a matança!”, diz o produtor Schwarzs (Pacino) a um constrangido Rick Dalton (DiCaprio).

Foto: Sony Pictures Entertaniment

A cena da atriz-mirim Trudi (Julia Butters) ditando regra para cima do velho ator de westerns é fabulosa, refina essas ironias decorrentes do enfrentamento entre gerações. A menina encarnaria, caso queiramos assim, a figura de algum YouTuber empoderado buscando dizer ao velho repórter de seis prêmios Esso qual deveria ser a postura ética, profissional e adequada em sua profissão. Tarantino esmera-se na metalinguagem: um dos chefes de dublês, Randy, que é controlado pela mulher, é interpretado pelo ex-durão Kurt Russel, enfiado num papel ainda mais decadente do que o de Brad Pitt (Cliff Booth). Este último vive solitário num trailer com um cão, assombrado por um passado nebuloso, como o Martin Riggs (Mel Gibson) de Máquina Mortífera. Ao mesmo tempo, mesmo podendo ser um oportunista, é o personagem de ética mais sólida, distribuindo rigor e responsabilidade em suas cenas.

Tarantino inunda o filme de citações. Elas vão desde as séries de tevê Bonanza e o antigo ator de Tarzan, Ron Ely, a Steve McQueen e Dennis Hopper, ao Besouro Verde e Batman, ao gibi de Kid Colt (que era amado por Raul Seixas), a Gunsmoke e Lancer. A trilha sonora vai de Bob Seger (Ramblin’ Gamblin’ Man) a Deep Purple (Hush e Kentucky Woman), de Jose Feliciano (California Dreamin’) a Vanilla Fudge (You Keep Me Hangin’ On) e Simon & Garfunkel (Mrs. Robinson). Enquanto Cliff Booth anda com seu Kharman Ghia pelas ruas de Los Angeles e filhas da Era de Aquarius fuçam em caçambas de lixo, a música vai girando velozmente em seu toca-fitas e na memória coletiva.

Caso o espectador se canse de procurar referências e diálogos intertextuais no filme (até porque são coisas remotas e não fazem sentido para a maioria), não há problema algum. Se escolher que o filme de Tarantino é somente entretenimento, é uma opção válida e verdadeira. Vai poder suspirar com Brad Pitt tirando a camisa no telhado, com as pancadas de artes marciais de praxe e com a profusão de starlets lindíssimas dançando e beijando muito em festas na Mansão Playboy.

Tarantino fez um filme bonito. Ele mente como só o cinema sabe mentir

Tarantino fez realmente um filme bonito. Quem conhece aqueles condomínios como os de Cielo Drive, em Los Angeles, sabe que não há comunicação entre os vizinhos das mansões. Ninguém fala com ninguém. Era Uma Vez em Hollywood penetra nesses muros. Até nisso é utópico. Tarantino mente do jeito que só o cinema sabe mentir para a gente. Ao final é como se ele garantisse a cada um de seus espectadores: não se aflija, nosso amor pelo cinema nos protegerá da barbárie.