“Torre das Donzelas” mescla drama e depoimentos para retratar rotina de prisioneiras da ditadura no Presídio Tiradentes

Na primeira cena do documentário Torre das Donzelas, com previsão de estreia na quinta-feira (19), senhoras na faixa dos 60 e 70 anos esboçam rascunhos em um quadro negro. Parece um quarto? Seria uma casa? Há uma torre. Estão desenhando um castelo? Na verdade, elas estão traçando o cárcere onde estiveram detidas no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nos anos 1970, durante a ditadura militar. 

Conhecido popularmente como Torre das Donzelas, o cárcere é recriado em estúdio por meio desses esboços e memórias compartilhadas pelas ex-detentas, pois o Presídio Tiradentes foi desativado em 1972 e demolido em seguida. Dirigido por Susanna Lira (Clara Estrela e Mataram Nossos Filhos), o documentário tem inspirações nos cenários de Dogville (2003) e no docudrama italiano César Deve Morrer (2012). A produção apresenta experiências de mulheres que passaram pela torre – a maioria, integrantes de movimentos políticos e estudantis –, às vezes utilizando reconstituições com atrizes. Elas revisitam o cárcere cênico e conversam reverberando o passado.  

— Acho importante termos a atmosfera do que foi aquele lugar, do que significou para aquelas mulheres aquela sobrevivência e, principalmente, aquela convivência. O que as fez sobreviver foi como conviveram — aponta Susanna.

Sororidade

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Atrizes encenam parte dos relatos das ex-prisioneirasModo Operante Produções / Divulgação

Segundo a diretora, o projeto começou há sete anos. Enquanto realizava uma pesquisa sobre o período, Susanna percebeu que muitas mulheres de atuação forte hoje haviam passado pelo Tiradentes. 

— Todas elas tinham uma questão de liderança: uma era professora da USP, outra tinha criado uma escola inovadora no interior de São Paulo, outra tinha sido secretária de educação no governo de Fernando Henrique Cardoso. Curiosamente todas eram do mesmo lugar — explica a cineasta.

Entre as ex-detentas da Torre das Donzelas está a ex-presidenta Dilma Rousseff, que exercia papel de liderança no cárcere. No documentário, ela se expressa de maneira serena e transparente, recordando com ternura de suas ex-companheiras.

— Tem relações afetivas que você tem, que você herda. Essas não. Você escolheu. São relações eletivas. É como a família. Elas são parte da minha família — diz Dilma, também lembrada com carinho por suas ex-colegas de cela.

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Presídio concentrou ex-presas políticas, como Dilma RousseffModo Operante Produções / Divulgação

Em Torre das Donzelas, as ex-prisioneiras relatam as ansiedades e a tortura, mas há um enfoque maior em como resistiram ao cárcere. A resposta está em uma sororidade muito exitosa: promoviam recreações, compartilhavam conhecimento e estudos – além de realizarem autodescobertas sobre sexualidade.

— Essa disciplina potencializou tudo nelas. Uma pessoa que entrou ali sem saber nenhum idioma saiu sabendo três línguas — conta Susanna. — Essa sororidade foi o que as salvou da depressão e as ajudou na resistência — completa. 

Ao fim, as ex-habitantes do Presídio Tiradentes não se sentem vítimas. Refletem que o silêncio é um inimigo e representaria uma vitória da ditadura. De donzelas, elas não têm nada.