UPPs não melhoram vida da população nas comunidades do Rio, aponta pesquisa

Da RBA

O que começou como uma solução para diminuir a violência nas periferias cariocas e mudar a relação entre moradores e policiais, tornou-se um sinônimo de mais do mesmo. O projeto da Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) caiu em descrédito no Rio de Janeiro e moradores acreditam que o programa está falido.

Segundo a pesquisa “UPP: Última Chamada”, do Centro de Estudos de Segurança Pública e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes, divulgado na terça-feira (22), entre 55% e 68% dos moradores das comunidades ocupadas pelo projeto afirmam que a presença dos policiais “não faz diferença”.

O estudo ainda aponta que 60% da população de favelas cariocas querem que as UPP fiquem, porém 66% acreditam que é um projeto falido, fora das diretrizes originais pelas quais entrou na comunidade. Para 54%, a continuar assim, as UPPs acabarão nos próximos anos.

“Era mítica a história de que a UPP entrou e mudou a vida das pessoas. Foi uma mudança de página na história das favelas. Isso aconteceu um pouco no começo e em algumas comunidades. Mas quando chegou na implantação da 20ª UPP já era outro tipo de serviço de segurança, um policiamento convencional, menos comunitário, sem a ideia de polícia de proximidade”, afirma a socióloga Silvia Ramos, em entrevista à repórter Viviane Nascimento, da TVT.

Mesmo nas comunidades em que o projeto funcionou por um período, a percepção é de retrocesso. “Após sete anos de sucesso, começou a ter disparos na comunidade, letalidade. Coisa que crianças nascidas naquele período não tinham visto. Retrocedeu à polícia que já tinha anos atrás: inconsequente, arbitráaria e abusiva”, relata José Mario dos Santos, da Associação de Moradores do Santa Maria.

Entre os que acreditam na continuidade do programa, 17% acham que a situação tende a piorar. A pesquisa mostra que a população identifica que há falta treinamento adequado dos policiais, pouco controle sobre a conduta do soldados e a ausência de outros serviços e projetos, além da ocupação policial das comunidades.

Para Luís Soares, do Conselho Gestor Intersetorial Manguinhos, o despreparo dos PMs se reflete no alto número de conflitos nas periferias. “A gente calcula que um programa público como esse deveria ter um monitoramento permanente e concertar assim que fosse identificado algum problema. A impressão que dá é que são jogados dentro da comunidade e o morador é que deve se adaptar ao bang-bang”, diz.

“A paz não precisa de pólvora. A paz precisa de cultura, acesso à educação e diminuição da desigualdade social. A paz está aí, não está no fuzil”, afirma Ricardo Fernandes, do grupo cultural Os Arteiros.