Violência faz com que 77% das pessoas evitem sair à noite em Porto Alegre

Foi apresentada, na manhã desta quinta-feira (01), na Sede do SINPEF-RS (Sindicato dos Policiais Federais do RS), a “1ª Pesquisa de Vitimização de Porto Alegre”, um estudo desenvolvido pelo Instituto Cidade Segura, pela Ugeirm (Sindicato dos Agentes da Polícia Civil) e pelos Sindicatos dos Policiais Federais e dos Policiais Rodoviários Federais do Rio Grande do Sul. A pesquisa partiu de uma necessidade, verificada pelos sindicatos e o Instituto Cidade Segura, de ter um diagnóstico mais preciso da violência na capital. A ideia é ir além dos dados oficiais, que se baseiam nos Boletins de Ocorrência e trazem uma grande distorção causada pela subnotificação de crimes por parte da população.

Os dados apresentados são preocupantes e surpreendentes, mesmo para quem acompanha o cotidiano de violência vivido pelos gaúchos nos últimos anos. Um em cada quatro habitantes de Porto Alegre já teve um familiar assassinado. Mais de 40 mil pessoas dizem já ter sido estupradas. Cerca de 500 mil, um terço da população, convive com tiros nos bairros onde vivem. Aproximadamente 920 mil (77,1% da população) evitam sair de casa à noite, enquanto 864 mil (72,5%) não portam objetos de valor quando estão na rua. 170 mil pessoas (14,3%) já sofreram ameaça de morte e 229 mil (19,2%) de agressão física. Só no último ano, 95 mil pessoas teriam sofrido esse tipo de ameaça. Os dados foram coletados em outubro do ano passado, em mil entrevistas aleatórias, com 142 perguntas, realizadas em oito regiões da Capital, pelo Instituto de Opinião Pública (IPO).

Somente com informação será possível traçar uma política séria de segurança pública

O presidente da UGEIRM, Isaac Ortiz, que participou da apresentação da pesquisa, afirma que esse estudo é fundamental para o trabalho policial. “Ao traçar uma política de segurança pública, o gestor tem que ter em mãos um retrato, o mais fiel possível, da realidade concreta da violência. Os índices oficiais são importantes, no entanto eles trazem uma grande defasagem em relação à realidade, pela subnotificação das ocorrências criminais. A ideia, com esse estudo, é suprir essa carência e subsidiar a elaboração de políticas públicas que melhorem o trabalho policial e as políticas de combate à violência”. Ortiz afirma ainda que “os sindicatos mostram, com essa iniciativa, que não é a falta de dinheiro que impede uma política de segurança eficiente no nosso estado. O que falta é vontade política de encarar de frente o problema da violência. O governo do estado teria condições de fazer um estudo desse em todo o estado, pois os custos não são grandes e os resultados são concretos e palpáveis. A UGEIRM vem, desde o início do governo Sartori/MDB, se colocando à disposição para essa discussão e sugerindo a parceria com as universidades e outros setores para a elaboração de estudos que façam diagnósticos e subsidiem uma política de segurança. Infelizmente, o governo nem se manifestou”.

O diretor da UGEIRM, Cládio Wohlfahrt, informou que esse estudo é o primeiro passo nessa parceria com os sindicatos dos Policiais Federais, dos Policiais Rodoviários Federais e com o Instituto Cidade Segura. “O próximo passo é a abertura de um amplo debate para a elaboração de um programa para a segurança pública, que será apresentado a todos os candidatos a governador. A ideia é conseguir um compromisso por escrito dos candidatos, com medidas concretas para combater a verdadeira epidemia de violência que vive o Rio Grande do Sul. Precisamos abandonar o discurso da crise, que permeiou e paralisou o governo Sartori/MDB, e partir para medidas concretas para tirar o RS da crise”, finaliza Cládio.

Veja alguns dos principais pontos destacados na pesquisa:

Golpes , furtos e roubos

O levantamento aponta que 35% dos moradores de Porto Alegre já teve algum bem furtado, sem contar veículos automotores. Um percentual um pouco acima dos entrevistados que declaram ter sido vítimas de roubo: 32,5%. Cerca de 31,4% dos entrevistados sofreram furtos duas vezes na vida, enquanto 51% relata ter sido roubado ao menos uma vez. Enquanto furto é mais comum para vítimas de classe média e alta, roubo é mais comum para quem ganha entre um e dois salários mínimos.

No último ano, 170 mil pessoas teriam sido vítimas de furtos na capital – 46,2% delas não registraram ocorrência. Segundo os registros oficiais, entre outubro de 2016 e outubro de 2017 foram registradas 27.824 ocorrências de furto e 34.811 de roubo, na capital gaúcha. Em ambos os casos, o estudo aponta uma subnotificação maior do que a declarada.

Crimes como golpes dados pelo celular (falso sequestro de parente, prêmios ou negócios inexistentes) já atingiram 27,1% da população. Fraude em cartão de crédito (clonagem e compras não-autorizadas) atingiu 7,5% dos entrevistados e fraude pela internet, 5,1%.

Assédio, violência sexual e ameaças

Dos entrevistados na pesquisa, 13% dizem já ter sido assediados sexualmente ao longo da vida. 38,5% das vítimas tiveram uma experiência, 26,2% duas e 11,5% três. Estima-se que uma cifra aproximada de 28 mil pessoas teria sofrido assédio sexual só no último ano. 88,9% não registraram ocorrência. Em 79,3% dos casos, o assédio aconteceu dentro de ônibus, 17,1% em serviços de aplicativos e 5,9% em táxis.

A pesquisa aponta ainda que 3,7% das pessoas maiores de 16 anos, que vive em Porto Alegre, já foram estupradas. A maioria das vítimas são mulheres.

Já as cifras de ameaças de morte e agressão física são próximas: 14,3% e 12,1%, respectivamente. 45,5% dos entrevistados diz já ter sofrido ameaças uma vez na vida. Homens, entre 18 e 39 anos, são a maioria das vítimas. Das cerca de 77 mil que teriam sido ameaçadas só nos últimos 12 meses que precederam o estudo, 65% não registraram ocorrência. Nos casos de agressão, a cifra cai para 57,5%. Dos casos de agressão contra mulher, 48,6% das vezes são praticados por homens com quem elas mantinham um relacionamento. Para os homens, agressões por ex-companheiras correspondem a 3,1% dos casos.

Discriminação e preconceito

Os números da amostra da pesquisa indicam que 243 mil pessoas (20,4%) já sofreram algum tipo de discriminação ao longo da vida. Cerca de 140 mil teriam sofrido discriminação no último ano, em 94,9% dos casos não houve registro de ocorrência. A maior parte das vítimas são jovens, negros e pardos. O racismo corresponde a 44,1% dos casos; “ser pobre” a 24,5%, discriminação por gênero corresponde a 14,2% e homofobia a 7,8%. A pesquisa registra ainda casos de preconceito por “ser gordo” (11,3%), por idade (9,3%) e por religião (8,8%).

Violência das ruas

Segundo a pesquisa de vitimização, aproximadamente 279 mil moradores de Porto Alegre já tiveram um familiar assassinado em algum momento. O que representa 23,4% da população. Dos 256 casos relatados pelos entrevistados (nem todos ocorridos na capital), 90,2% tinham como vítimas homens e 9,8% mulheres. A maioria (30,4%) recebia entre um e dois salários mínimos, tinha entre 18 e 24 anos (34,5%) e eram negros ou pardos (75%).

A sensação de insegurança se reflete nos indicativos sobre hábitos e cotidiano. Dos entrevistados, 77,1% evitam sair de casa à noite, o que corresponderia a 920 mil habitantes. Outros 72,5% dizem não portar dinheiro ou objeto de valor na rua, enquanto 12,6% não andam de ônibus por medo de roubo. Para os pesquisadores, isso poderia ter colaborado para uma redução no número de passageiros de transportes coletivos.

Além disso, a pesquisa mostra que 42% dos entrevistados dizem ouvir “tiros na rua”, com frequência, no bairro onde vivem. Uma estimativa próxima de 500 mil moradores da Capital. Quase um quarto (24%) da população sofre com “pessoas fazendo arruaça, danificando patrimônio público” e 28,5% com “importunação do sossego”. A pesquisa estima ainda que 404 mil pessoas sofram de ansiedade diante de riscos, 395 mil tenham “pânico por riscos envolvendo familiares” e 83 mil sofram com “pesadelos com cenas de violência”.

“Tais alternativas chamam a atenção para algo quase nunca considerado como um ponto importante para a segurança pública e dá conta de um cotidiano de milhares de munícipes atormentados por atos de incivilidade urbana e que não encontram no Poder Público e nas polícias, como regra, qualquer resposta capaz de lhes assegurar sossego e paz”, diz o relatório.

Confiança nas polícias

Outro aspecto destacado na pesquisa, que reflete diretamente as chamadas cifras obscuras, é a confiança da população nas polícias: Militar e Civil. Em números gerais, o estudo aponta que os mais jovens tendem a ter menor confiança e que é grande a percepção de que as forças de segurança não estarão disponíveis, quando se precisa. O estudo separou as questões sobre as duas polícias.

Entre os entrevistados, 17,9% diz já ter sido abordado pela Brigada Militar. Mais da metade dos negros e pardos ouvidos (50,6%) diz já ter sido abordado. Entre pessoas de 18 a 24 anos, a porcentagem é de 32,4%, enquanto para aqueles acima de 59 é de 8%. Para 31,8% dos entrevistados a abordagem foi desrespeitosa, o que 50,1% dos entrevistados diz acreditar ser atitude comum da PM, mesmo em situações que não exigiriam “postura mais vigorosa”. Para 35,3%, no entanto, “os PMs não são violentos e que agem comumente de forma respeitosa com as pessoas, sendo que eventuais situações de abuso de autoridade são prontamente investigadas e seus autores punidos”. O estudo aponta ainda que brancos avaliam melhor sua experiência com a PM, com 77,1% de avaliações positivas. Enquanto negros e pardos são, respectivamente, 54,5% e 57,7%.

A pesquisa também revela que quase um quinto dos entrevistados (21,4%) procurou a Brigada entre outubro de 2016 e outubro de 2017. Entre pessoas com formação superior e renda entre 3 e 5 salários isso seria mais frequente. Um terço diz que suas perguntas não foram respondidas de forma satisfatória, 56,3% entendem que a instituição não tem realizado um bom trabalho com os residentes do seu bairro, enquanto 43,7% diz que está contente com o serviço. Entre entrevistados que foram vítimas de roubo ou agressão e aqueles que tiveram familiares assassinados, a avaliação sobre o trabalho da Brigada é levemente superior à média.

A Polícia Civil foi procurada por 17,7% dos entrevistados nos últimos doze meses, o que equivaleria a 210 mil habitantes da Capital. A maioria dos que recorrem à ela são pessoas que recebem entre 3 e 5 salários. 82,5% dos entrevistados diz ter sido tratado de forma equitativa, 74,6% declaram que os policiais responderam satisfatoriamente as suas perguntas, enquanto 25,4% dizem que não. 40,7% dos entrevistados se declara insatisfeito com trabalho da PC.

Mais da metade dos entrevistados (57,7%) acredita que a Polícia Civil gaúcha não tem conseguido “bons resultados, nem contribuído para a redução do crime”. Os outros 42,3% acreditam discordam. Proporção próxima (55,2%) aqueles que acreditam que os agentes são bem preparados para o trabalho.

Os mais jovens são os que indicam menos confiança no trabalho da corporação. Para 58,1% dos entrevistados, não há como esperar que a Polícia Civil esteja disponível quando se precisa. 61,9% acredita que a Civil não escuta moradores e não compreende problemas que afetam as comunidades. Ao contrário do que ocorre com a Brigada, entre vítimas de crimes e pessoas que tiveram familiares assassinados, a avaliação da Polícia Civil é mais negativa.

A pesquisa pode ser conferida na íntegra aqui.