Feminicídio não é estatística: é projeto de abandono do governo do Estado, que insiste em responsabilizar a segurança pública
Vivenciamos um janeiro trágico. O feminicídio não acontece de forma repentina, do dia para a noite. Ele é o ponto final de um longo ciclo de violência que começa muito antes do assassinato. Quando políticas públicas de prevenção são desmontadas, quando redes de proteção são fragilizadas e quando a violência de gênero deixa de ser prioridade, o desfecho é conhecido e trágico. E, quase sempre, a responsabilidade recai sobre a segurança pública.
No Rio Grande do Sul, onze mulheres foram assassinadas apenas desde o início de janeiro deste ano. Ainda assim, o governo insiste em vender a narrativa de que vivemos “o ano mais seguro da história”. Seguro para quem? Certamente não para as mulheres.
Em 2025, 80 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado, um aumento de 10% em relação ao ano anterior, quando 73 mulheres foram assassinadas. Os números desmentem a propaganda do governador Eduardo Lente e expõem uma realidade incômoda: a queda geral da criminalidade não se traduz em segurança para metade da população do Rio Grande do Sul.
Esses dados não surgem do nada, são fruto direto de decisões políticas. Em 2015, o governo de José Ivo Sartori extinguiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres. A estrutura só foi recriada em 2025, após oito anos de governo Eduardo Leite, e somente depois que os índices se tornaram impossíveis de ignorar, quando dez mulheres foram assassinadas no feriado de Páscoa. No intervalo entre o desmonte e a recriação, o RS bateu recorde: em 2018, foram 117 feminicídios. Nem mesmo esse alerta máximo foi suficiente para provocar uma resposta à altura.
Agora, em 2026, os números voltam a crescer. A maioria das mulheres assassinadas não possuía medida protetiva de urgência, o que evidencia falhas profundas na rede de proteção, que não se resume à atuação policial. Quando uma mulher é morta, não se trata de uma falha pontual: é o resultado de uma sucessão de omissões. O Estado falhou em prevenir, em acolher, em proteger, mais uma vez. E surge, em momentos de crise como esses, com soluções milagrosas, sempre voltadas à segurança pública e com pouca efetividade, como se o trabalho de prevenção não transpassasse todas as esferas sociais.
A ausência de campanhas educativas, de políticas de prevenção e de suporte contínuo contribui diretamente para a manutenção do ciclo de violência. Muitas mulheres não conseguem identificar sinais de relações abusivas. Outras até reconhecem o risco, mas não encontram apoio na rede de proteção para romper com o ciclo da violência.
Enquanto isso, as forças de segurança, que só são lembradas quando os índices vêm à tona, operam no limite. As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) funcionam com estruturas precárias e equipes reduzidas. Em Porto Alegre, mulheres aguardam atendimento do lado de fora, muitas vezes acompanhadas de seus filhos. Em Viamão, apenas sete servidores tentam dar conta de toda a demanda. Em todo o estado, os pedidos de exoneração crescem, escancarando o esgotamento do sistema e a falta de valorização dos policiais civis.
Quando o feminicídio acontece, ele adoece não somente a família da vítima, mas também as mulheres policiais que atuam no combate à violência de gênero, porque a responsabilidade de dar uma resposta do Estado recai sobre elas, para que os índices sejam reduzidos.
É preciso dizer com clareza: a Polícia Civil é o último elo de uma cadeia que deveria funcionar de forma integrada. Quando políticas de prevenção falham, quando não há investimento em educação, acolhimento e conscientização, a violência já chegou longe demais. Cobrar respostas apenas da polícia é ignorar que o problema começa muito antes da atuação policial.
E prender esses homens, que precisam ser devidamente punidos e estão sendo, está prevenindo a morte de mais mulheres? Essa é a pergunta que se faz. Somente um autor dos onze crimes de janeiro segue foragido, enquanto todos os outros foram presos pelas forças policiais. Mesmo assim, os números seguem crescendo. Afinal, todas as etapas de prevenção estão sendo desmontadas.
Por isso, é inaceitável que o governador passe oito anos de seu mandato sem políticas públicas efetivas para o enfrentamento da violência contra a mulher, sob o pretexto de que, por ser um crime doméstico, o Estado não pode estar presente na prevenção.
O enfrentamento ao feminicídio exige uma abordagem ampla e contínua. Passa pela educação básica, pelo atendimento em saúde, pelo ambiente de trabalho, pelas delegacias, pelas casas de abrigo. Exige centros de referência, programas de reeducação de agressores, campanhas permanentes e valorização dos profissionais que atuam na linha de frente. Exige, sobretudo, vontade política.
Então, sim: o Estado é responsável por esses números. Falar em empoderamento e políticas públicas é garantir que mulheres conheçam seus direitos, identifiquem sinais de abuso e tenham condições reais de sair de relações violentas. É enfrentar a misoginia e as relações de poder, ignoradas pelo poder público.
O feminicídio não é um fato isolado. É o resultado de um ciclo longo, previsível e evitável. E enquanto esse ciclo não for quebrado com políticas públicas sérias e compromisso real, novas estatísticas continuarão sendo anunciadas, como se fossem inevitáveis. A segurança pública e a atuação da Polícia Civil são vitais para o desmantelamento deste ciclo, mas não podem ser apontadas como a única solução.
