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O preço do desmonte: por que o número de feminicídios cresce tanto no RS?

(Por UGEIRM Sindicato*)

Apesar de o Rio Grande do Sul figurar entre os estados que mais reduziram índices de criminalidade no Brasil, essa sensação de segurança não alcança as mulheres que vivem na região. Uma reportagem do jornalista Vitor Rosa, da RBS TV, mostra que somente entre janeiro e outubro de 2025, 69 mulheres foram assassinadas, um aumento de 21% em relação ao ano anterior. As tentativas também cresceram: passaram de 189 para 226 – um salto de 19%.

Esses números, embora alarmantes, não surpreendem. Logo nos primeiros meses, 2025 já revelava a falência das políticas de proteção às mulheres no estado. No feriadão de Páscoa, entre 18 e 21 de abril, dez mulheres foram vítimas desse crime, que decorre da condição de gênero e envolve violência doméstica, familiar ou discriminação. Mantido esse ritmo, o RS tende a seguir liderando, como já ocorre há dois anos, o ranking nacional de feminicídios cometidos contra mulheres que tinham medidas protetivas ativas no momento do assassinato, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança, realizado desde 2007.

Foi preciso que se instalasse uma crise de segurança e que os casos se multiplicassem, como resultado da ausência de políticas robustas, para que o governador Eduardo Leite anunciasse, apenas no fim de setembro, a recriação da Secretaria da Mulher – extinta em 2015, no governo de José Ivo Sartori. Já são nove anos de desmontes e negligência às estruturas de prevenção e proteção, cujas consequências se traduzem nas dezenas de mortes testemunhadas nos últimos anos.

Além do descaso com as vítimas e as sobreviventes, as forças de segurança responsáveis por enfrentar o crime convivem com condições de trabalho precárias, falta de pessoal e estruturas inadequadas. É o caso das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) de Porto Alegre e de Viamão. Na capital, sequer há um espaço apropriado para que as vítimas aguardem atendimento: muitas precisam esperar por horas do lado de fora com seus filhos, o que desestimula denúncias e pedidos de ajuda. Em Viamão, apenas sete servidores e servidoras dão conta de toda a demanda. E, em todo o estado, os pedidos de exoneração seguem crescendo, escancarando a situação crítica da instituição.

Quando índices tão graves vêm à tona, como os 69 feminicídios registrados nos últimos dez meses, os holofotes recaem sobre as forças de segurança. Mas é preciso lembrar que a Polícia Civil e demais agentes representam o último elo de uma cadeia de instituições que deveria atuar de forma integrada na proteção das mulheres. Quando essa rede se rompe e falha em promover ações de prevenção, acolhimento e conscientização, o resultado é inevitável: a explosão de casos de feminicídio.

É essencial que o governo compreenda que as polícias e os agentes das forças de segurança devem ser parte da solução, participando de ações educativas e preventivas, e sendo fortalecidas com condições dignas de trabalho e valorização. Assim, poderão atuar antes que a violência alcance seu ponto de limite, culminando nos assassinatos.

O combate ao feminicídio e à violência de gênero precisa atravessar todas as esferas da sociedade: da educação básica ao atendimento hospitalar, do acolhimento nas delegacias ao ambiente de trabalho. Construir uma rede eficaz exige investimentos em casas de abrigo, centros de referência, programas de reeducação de agressores e campanhas de prevenção. Só assim a polícia poderá seguir fazendo o que já demonstrou ser capaz: proteger mulheres e agir com firmeza contra os responsáveis pelos homicídios no Rio Grande do Sul.

* O Coletivo de Mulheres da UGEIRM Sindicato é formado por policiais civis, escrivãs, inspetoras e investigadoras, da ativa e aposentadas, que lutam para que a Polícia Civil seja um espaço livre de assédio e de discriminação de qualquer tipo.

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS