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Anuário da Segurança Pública mostra que investir na Polícia Civil reduz a violência, mas no RS Policiais Civis seguem desvalorizados.

O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foram 34.372 mortes violentas, uma redução de 8,2% em relação ao ano anterior, fazendo a taxa nacional cair para 19,0 mortes por 100 mil habitantes, pela primeira vez abaixo da marca de 20. Também houve redução expressiva dos roubos de veículos (-10,4%), roubos de carga (-13,6%) e roubos a instituições financeiras (-22,5%).

À primeira vista, os números demonstram uma melhora importante da segurança pública brasileira. Mas uma análise mais aprofundada do Anuário revela um aspecto que deveria orientar as políticas públicas dos estados: os resultados positivos caminham lado a lado com o fortalecimento da investigação criminal, da inteligência policial e da integração entre as instituições de segurança.

Enquanto parte do debate público ainda concentra suas atenções apenas no policiamento ostensivo, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca que o enfrentamento qualificado às organizações criminosas, o aumento da capacidade investigativa e a produção de inteligência são fatores determinantes para a redução da violência. Em outras palavras: não existe segurança pública eficiente sem uma Polícia Civil forte.

Criminalidade muda e exige mais investigação policial

Se por um lado os crimes violentos e os roubos tradicionais diminuíram, por outro o Anuário aponta uma explosão dos crimes patrimoniais praticados pela internet.

Somente em 2025, foram registrados mais de 2,8 milhões casos de estelionatos em todo o país, mantendo a tendência de crescimento observada nos últimos anos. A maior parte desses delitos envolve golpes eletrônicos, fraudes bancárias e crimes cibernéticos, modalidades que exigem investigações cada vez mais complexas, análise de dados, inteligência policial e produção qualificada de provas.

No Rio Grande do Sul o crescimento desses crimes também foi expressivo. No ano de 2025 foram registradas 83.660 ocorrências de estelionato, contra 80.572 no ano anterior. O crescimento foi de 3,8%, com uma taxa de 744,8 registros para cada 100 mil habitantes.

Os estelionatos praticados por meio eletrônico cresceram ainda mais. O número passou de 14.917 casos em 2024 para 16.168 em 2025, aumento de 8,4%. Isso significa que o estado registrou, em média, mais de 44 ocorrências de estelionato eletrônico por dia.

Depois de muitos anos com foco no policiamento ostensivo, que também é importante, esse novo cenário reforça o protagonismo da Polícia Civil no combate ao crime. Não é por acaso que o próprio Anuário dedica espaço crescente à necessidade de fortalecer a capacidade investigativa das polícias judiciárias, reconhecendo que a redução da impunidade depende diretamente da qualidade das investigações.

Rio Grande do Sul precisa caminhar na mesma direção

Apesar desse diagnóstico, a realidade enfrentada pelos Policiais Civis gaúchos segue na contramão do que indicam os estudos técnicos sobre segurança pública. Nos últimos anos, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul perdeu um grande número de servidores entre aposentadorias e exonerações, convive com déficit de efetivo em diversas regiões, Unidades Policiais funcionando em condições precárias e uma política permanente de arrocho salarial, que dificulta a retenção de profissionais qualificados e compromete a reposição dos quadros.

Para o vice-presidente da UGEIRM, Fabio Castro, os dados do Anuário confirmam aquilo que o sindicato vem denunciando há anos: “o próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstra que os melhores resultados na redução da violência estão associados ao fortalecimento da investigação criminal e da inteligência policial. Isso significa investir nas pessoas que fazem esse trabalho acontecer. Valorizar a Polícia Civil não é atender uma pauta corporativa; é adotar uma política pública que traz resultados concretos para toda a sociedade.”

Segundo Fabio Castro, enquanto a criminalidade se torna mais sofisticada, os governos precisam compreender que também é necessário modernizar as estruturas responsáveis por enfrentá-la. “Hoje o policial civil investiga organizações criminosas altamente estruturadas, crimes financeiros, golpes eletrônicos e fraudes digitais que movimentam milhões de reais. Investigar esse tipo de delito exige acesso rápido a informações, sistemas integrados, equipamentos atualizados, capacitação permanente e policiais em número suficiente para atender ao crescimento da demanda. Não é possível enfrentar essa realidade com efetivos reduzidos, salários defasados e estruturas físicas precárias. Segurança pública de qualidade exige investimento permanente na Polícia Civil”.

Valorizar a Polícia Civil é investir na segurança da população

O Anuário mostra que os desafios da segurança pública deixaram de estar concentrados apenas na repressão imediata ao crime, função da polícia ostensiva. Hoje, a capacidade do Estado de investigar, identificar autores, produzir provas e desarticular organizações criminosas tornou-se um dos principais fatores para reduzir a violência e combater a impunidade, funções essas que são executadas pela Polícia Civil

Para a UGEIRM, essa constatação reforça uma reivindicação histórica da categoria: investir na valorização dos Policiais Civis significa investir em uma política pública eficiente de segurança. Realizar concursos públicos, recompor os efetivos, garantir promoções, oferecer remuneração compatível com a responsabilidade da carreira, modernizar as Unidades Policiais e investir em tecnologia não representam apenas medidas de valorização profissional. São decisões que fortalecem a investigação criminal, aumentam a capacidade de resposta do Estado e produzem resultados concretos na proteção da sociedade.