Com provas nos dias 17 e 24, Enem escancara desigualdade no ensino e abandono do MEC

Governo ignorou emergência sanitária e dificuldades enfrentadas por estudantes de baixa renda na pandemia

Daniel GiovanazBrasil de Fato | Florianópolis (SC) | 

A estudante Maria Eduarda Martins, de 18 anos, mora em Florianópolis (SC) e, como outros 5,7 milhões de brasileiros, está na reta final de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

As provas, que podem garantir que Maria Eduarda realize o sonho de cursar Psicologia, serão aplicadas nos dias 17 e 24 de janeiro. O calendário é questionado por organizações estudantis, que vêm pressionando o Ministério da Educação (MEC) a adiar o exame em função das dificuldades impostas pela covid-19.

O relato da estudante catarinense deixa claro que o ano letivo de 2020 foi diferente dos anteriores. As aulas do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde ela estuda desde o 9º ano, foram suspensas em março e retomadas no formato de ensino a distância em junho.

“É muito difícil focar com um formato desse, porque ninguém nunca tinha feito isso antes. A gente foi pego de surpresa”, lamenta. O Colégio de Aplicação ofereceu aulas das 9h às 12h de segunda a sexta durante a pandemia, com 20 minutos para cada disciplina.

“Para completar a carga horária dessas aulas, eu teria mais 20 minutos de atividade assíncrona [sem acesso ao professor em tempo real]”, acrescenta a estudante. “Isso também atrapalhou um pouco, e a gente tinha que aprender sozinho, praticamente. Porque os professores, em geral, usavam o tempo da aula não para tirar dúvidas, mas para passar um novo conteúdo. Foi muito corrido e ficou muito confuso.”

Para complementar o aprendizado, desde setembro Maria Eduarda recorre a aulas disponibilizadas gratuitamente por um colégio privado de Itajaí (SC) no Youtube. “Pela manhã eu assistia às aulas, à tarde eu fazia as atividades, e à noite eu via – e ainda vejo – as aulas desse cursinho pré-Enem.”

Embora estude em um colégio público, enfrente as dificuldades do ensino a distância (EaD) e não pague para assistir às aulas complementares, a estudante de Florianópolis desfruta de um recurso que não é garantido a todos os jovens do Brasil: o tempo para se dedicar exclusivamente aos estudos.

Não é o caso de Wellington Carlos de Souza Barbosa, de 17 anos, estudante do Colégio Estadual São João, em Pato Branco (PR). Dispensado da função de menor aprendiz no Banco do Brasil por conta da pandemia, ele trabalha com o pai das 7h às 17h na construção civil.

As aulas a distância são oferecidas no período da noite, e a escola também disponibiliza atividades impressas. Wellington reconhece o esforço dos professores na pandemia, mas diz que teria que “refazer” o 3º ano para ter condições de obter uma boa nota no Enem e ingressar no curso de Engenharia Civil. Por isso, nem se inscreveu no exame.

“Esse ano foi praticamente perdido”, lamenta, lembrando que muitos de seus colegas tiveram dificuldade no acesso à internet e ao aplicativo usado para as aulas on-line.

“Quando a gente foi se aprofundar mais no conteúdo do 3º ano, começou a pandemia. E, por mais que no colégio eu seja bom, em casa eu não consigo estudar muito, porque meu irmão é cadeirante e minha mãe tem uma neném, não dá tempo. Não quero fazer [o Enem] por fazer. Quero ir lá e passar”.


Aulas on-line aprofundaram desigualdade entre estudantes de diferentes classes sociais / Divulgação/MCTIC

Críticas

Rozana Barroso, presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), avalia que o MEC não oferece condições mínimas para realização do exame em janeiro.

“Quem mais trabalha para o Enem não acontecer é o próprio Ministério. Eles não divulgaram as medidas de segurança que serão tomadas, não levaram em conta a segunda onda do coronavírus, não pensaram na estruturação das escolas públicas para receber esses estudantes e em saídas para a exclusão digital, que faz com que a maioria dos estudantes brasileiros tenham o direito à educação violado”, afirma.

A dirigente estudantil, que também prestará o exame, defende o adiamento das provas. Segundo Rozana, o primeiro adiamento, de 2020 para janeiro de 2021, foi uma vitória, mas o MEC não aproveitou a oportunidade para aprimorar as condições de aplicação do Enem.

A União Nacional dos Estudantes (UNE) concorda que as provas devem ser adiadas novamente por conta da pandemia. “Houve um plano de adaptação às condições sanitárias para realização da prova, lançado em julho, mas estamos vivendo um aumento de casos de coronavírus, e não há um plano para essa situação atual”, alerta o presidente da instituição, Iago Montalvão.

“Existe receio entre os estudantes de que, ao irem realizar a prova, eles podem contribuir para um aumento na contaminação ou eles mesmos se contaminarem, levarem o vírus para suas famílias”, acrescenta. “Temos estudantes em grupos de risco, com comorbidades, e falta informação sobre como serão as medidas de segurança sanitária nos dias de prova.”

A UNE e a Ubes afirmam que fizeram vários questionamentos ao MEC sobre o tema, mas não houve disposição por parte do ex-ministro Abraham Weintraub e do atual chefe da pasta, Milton Ribeiro, para acolher as críticas ou elaborar alternativas conjuntamente.

“Vai ser extremamente difícil fazer o Enem este ano. Seis horas de máscara, sem poder comer, sem poder tomar água, dentro de uma sala de aula”, prevê Maria Eduarda Martins, estudante de Florianópolis, relembrando as vagas orientações repassadas pelo Ministério até o momento. “A tensão, que já era grande na hora da prova, vai ser ainda maior.”

Coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda vê dois problemas estruturais na realização do Enem 2020. Primeiro, a falta de investimento, em um governo marcado por políticas de cortes e austeridade, que impediram a garantia de condições de trabalho para profissionais da educação e de estudo para estudantes.

Em segundo lugar, ela ressalta que as políticas foram elaboradas sem construção democrática com a comunidade escolar, ignorando as realidades e necessidades dos estudantes, pais e trabalhadores da educação. 

“Realizar o Enem nesse momento de emergência sanitária e ignorando toda a exclusão escolar do ano que passou é reiterar uma política educacional excludente, classista e racista”, enfatiza Pellanda.

Brasil de Fato entrou em contato com o MEC e apresentou os questionamentos levantados durante a reportagem. Não houve retorno.

Como será a prova

Criado pelo MEC em 1998, o Enem é utilizado para avaliar o conhecimento dos estudantes e possibilitar o ingresso no ensino superior. O resultado da prova pode ser usado para concorrer a vagas em universidades conveniadas ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep) ou a faculdades privadas.

Nos dias de prova, os candidatos devem levar um documento oficial de identificação com foto, caneta esferográfica de corpo transparente e tinta preta e máscara de proteção à covid-19.

O Inep manteve a estrutura das provas do Enem. O exame tem, ao todo, 180 questões e uma redação.

1º dia (17 de janeiro), com 5h30 de duração

– 45 questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Língua Portuguesa, Literatura, Educação Física, Artes e Língua Estrangeira)

– 45 questões de Ciências Humanas e suas Tecnologias (Filosofia, Geografia, História e Sociologia)

– Redação

2º dia (24 de janeiro), com 5h de duração

– 45 questões de Matemática e suas Tecnologias

– 45 questões de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (Biologia, Química e Física)

Edição: Leandro Melito