Edgar Vasques: as aventuras de um desenhista crônico

Edgar Vasques completa 50 anos de carreira como artista gráfico em 2018. E faz questão de frisar que quem completa 50 anos de carreira é ele, o autor, e não seu personagem mais famoso, o Rango, que tem “apenas” 48 anos e que terá novo livro lançado logo mais em agosto pela editora L&PM, intitulado Crocodilagem – O Brasil visto de baixo.

Edgar Vasques realizou seu primeiro trabalho profissional em 1968 depois de uma viagem para o exterior. O avô dele, o dr. Carlos Alfredo Simch, além de ser pai da sua mãe foi seu padrinho de batismo. Conforme Edgar, era um senhor vitoriano, médico, cirurgião, farmacêutico – que se formou na Bahia e teve como paraninfo o próprio Santos Dumont –. Quando voltou da Bahia, o dr. Simch foi clinicar no interior do estado e acabou prefeito de São Jerônimo. Um tempo depois, tornou-se senador na vaga de Ernesto Dornelles, nos anos 1950.  O dr. Simch achava que um artista tinha que conhecer a Europa e quando faleceu deixou para o Edgar “uma grana” para que o neto pudesse conhecer o velho continente. E assim foi.

“Então, no verão de 1968, eu parti para a Europa com 18 anos sem nunca ter nem saído de Porto Alegre”, conta. Ficou inicialmente na casa de um primo que trabalhava na Varig e tinha casa em Portugal, depois foi para Espanha, Itália e França. As ligações de família com a Varig, que era uma potência da aviação no mundo, abriam portas e proporcionavam algumas regalias como hospedagem e transporte a todos os lugares. Numa parte da viagem foi acompanhado por um tio.

Paris tornou-se especialmente interessante, porque era fevereiro de 1968. Dois meses antes  das passeatas estudantis a cidade já estava efervescente dos movimentos que culminariam em maio e mudariam o mundo. “Eu, com 18 anos, percorri Paris no banco de trás de uma Mercedes Benz com chofer, por conta da Varig”.  Recorda das pichações nos muros escrito “Mao”, em clara alusão a Mao Tsé-Tung, líder comunista chinês.

“Quando voltei para Porto Alegre, eu trouxe um caderno de viagens com desenhos. Antes de viajar a minha mãe havia feito pra mim uma pasta com papel de desenho e eu preenchi essa pasta com minhas impressões. Neste retorno, saiu uma matéria no jornal Correio do Povo, cujo diretor na época era o Oswaldo Goidanisch*, que também era chefe do cerimonial da Assembleia Legislativa, onde meu pai trabalhava, e amigo dele, e fez uma matéria comigo cujo título era ‘Jovem artista gaúcho desenha Europa em seu bloco de viagens”. (Goidanisch foi o criador do suplemento cultural Caderno de Sábado, do Correio do Povo, no ano anterior)

Ainda não era a estreia profissional, mas a partir de então Edgar passou a colaborar como ilustrador do Caderno de Sábado. “O primeiro conto que ilustrei e recebi por isso foi um conto do Armindo Trevisan chamado Canoa, peixe, menino. Na verdade, a primeira vez que me pagaram foi quando eu fiz um desenho de uma cena de futebol pro carnê do Campeonato Gaúcho quando tinha 14 anos, publicado por uma pequena gráfica de um outro amigo do meu pai. Mas considero isso um ponto fora da curva”.

Edgar Vasques recebeu nossa reportagem em sua casa no Bairro Petrópolis, em Porto Alegre, e contou um pouco da sua trajetória nesse meio século de traços e humor, numa tarde fria de inverno, enquanto Espanha e Portugal empatavam 3×3 pela Copa do mundo.

Extra Classe – Aos 18 anos você já se via como um artista, como alguém que viveria do desenho?

Edgar Vasques – Eu sempre me vi como desenhista. Eu via meus amigos com angústias sobre o que seriam na vida e eu não tinha dúvida. A única questão que tive foi a de como aplicar o desenho numa profissão e como ganhar a vida com isso. Então, também aos 18 anos, fui estudar Arquitetura, muito embora tenha feito vestibular para escola de Artes e para Arquitetura e passei em ambos. Cursei ambas durante um ano e meio. Foi quando tomei uma decisão inexplicável, pois saí da escola de Artes e fiquei na Arquitetura. No começo de 1969 existia um clima no meio estudantil de resistência à ditadura militar. O AI-5 era uma novidade. E onde as coisas aconteciam politicamente era na faculdade de Arquitetura. Na época a escola de Artes estava meio à margem de tudo que estava acontecendo. Tinha umas freiras, umas donas de casa que queriam pintar porcelana, muito embora muita gente saiu de lá artista e são meus colegas até hoje. Me refiro mais ao ambiente que era amador nas intenções da maioria das pessoas, porém a formação era qualificada. E lá na Arquitetura permaneci por dez anos e meio (risos).

Ilustração: Edgar Vasques/Reprodução Ilustração: Edgar Vasques/Reprodução

EC – Como conciliava a vida de ilustrador com a de estudante?
Vasques – Ao mesmo tempo que eu cursava Arquitetura, eu trabalhava de forma intermitente nos jornais. Trabalhava num e outro, perdia o emprego, na maioria como frila. Meu primeiro emprego em jornal como funcionário de carteira assinada foi no Jornal da Semana, um semanário com sede no Vale dos Sinos. Um certo dia encontro o Zeca Sampaio, irmão do cartunista Sampaulo na rua, ambos eram amigos do meu pai na boemia. E o Sampaio colaborava para esse jornal. Havia um caderno do Grêmio e outro do Inter.  Eu fazia ilustrações para o caderno do tricolor e o Sampaio, que era colorado, desenhava o do Internacional. Lá encontrei Osmar Trindade, Felix Valente e um jovem jornalista magro e dentuço chamado Antônio Britto, que era ainda um repórter foca que passava as tardes me enchendo o saco pra fazer a caricatura dele. Até que um dia eu fiz e ele se acalmou. Mal sabia eu que teria a oportunidade de revisitar o tema em outras circunstâncias (risos).  Mas, fora do esporte, era um jornal que ficava alardeando a ditadura. Um dia me pediram pra eu fazer um desenho elogioso à economia brasileira, com Delfim Netto, que era ministro da Fazenda. Aí pensei: “Ih rapá, sujou pro meu lado”. O dono do jornal era um pastor protestante bem conservador e tive de aplicar que uma coisa importante como a economia, que era uma coisa séria, não cabia uma caricatura, mas cabia uma fotografia. Me safei, mas isso me fez ver que fora do esporte não teria como me esquivar pra sempre. Foi então que me demiti e ficou como um marco. Dali em diante jamais desenhei nada em que não acreditasse. Isso até explica minhas dificuldades profissionais, em parte, sem contar o boicote que houve contra mim durante um tempo.

EC – E a arquitetura?
Vasques – Eu também já tinha decidido que não seria arquiteto.  Na minha cabeça, o arquiteto é o profissional habilitado pra resolver um dos problemas básicos. A pessoa tem que comer, vestir e morar. E o arquiteto sendo este profissional que estuda e é treinado pra isso não encontra seu público.  Ele só pode atender a massa da população se tiver uma política pública e, na época, acabou virando um cara que fazia espigões para a classe média. Tem todo um discurso e uma postura dos arquitetos, muitos de esquerda, mas na prática aquilo não me motivava. Minha escolha foi em função de ter talento pra narrativa visual e poder contribuir de alguma forma em ajudar as pessoas a pensar e com isso fiquei no desenho.

EC – Por que permaneceu na faculdade?
Vasques – Eu permaneci na faculdade de Arquitetura, que aliás, foi uma experiência excelente em termos humanos e culturais também, mas também porque o diploma me daria direito à prisão especial numa época em que cartunista ia em cana. Mas o motivo da demora em concluir o curso, além da intermitência entre o trabalho em jornais, que era o que eu queria, eu ia muito mal nas disciplinas técnicas. Eu tenho um trauma com a matemática. Eu era muito tímido e no terceiro ano primário e comecei a não entender e por vergonha de perguntar, a também não aprender. A matemática é uma escada, se falha um ou dois degraus daqui a pouco não alcança mais.  Eu cheguei na faculdade com a matemática defasada para o que se exigia. Quando começaram a falar em cálculo diferencial e matrizes determinantes. Não existia máquina de calcular. Tínhamos uma régua de cálculo que até hoje não sei como funciona. Dito isso, rodei nove vezes na cadeira de Cálculo de Concreto, o que dá quatro anos e meio. Só passei porque o professor me passou depois de muitos semestres tentando me ensinar até que um dia ele desistiu (risos). Teoricamente sei tudo de concreto armado, mas se tiver de calcular, não. “O concreto armado é uma associação solidária do concreto com o aço”, essa a primeira frase do curso. Mas tinha uma colega e o namorado que sabiam muito. Eu pedi cola pra ela e o cara interceptou a folha pra conferir o cálculo dele. E o tempo passando. Quando quase não dava mais tempo pra terminar a prova o rapaz, um bundinha, talvez com ciúme sem motivo, largou uma folha de almaço dobrada em cima da mesa. Na sala silenciosa aquilo foi um estrondo. E eu ficava desdobrando a folha pra consultar: plect, plact. Até que o professor resolveu encerrar o tempo e recolheu. Sem terminar entreguei a cola junto e escrevi: vide rascunho. Rascunho com outra letra, aliás. E foi assim que depois de quatro anos e meio conclui o curso de Arquitetura (mais risos). Não tenho queixas do curso de Arquitetura, mas foi um desperdício em termos profissionais, mas como experiência humana e de amizades foi maravilhoso.

EC – Como deslanchou na profissão?
Vasques – Ainda na faculdade de Arquitetura fui colega do José Antônio Pinheiro Machado, o hoje Anonimous Gourmet, que era meu colega desde o colégio de Aplicação no Segundo Ciclo, onde também tinha rodado em Matemática e fiquei na turma do irmão mais moço dele, o Ivan Pinheiro Machado. Fui colega dos dois. O Ivan também entrou na faculdade de Arquitetura. Outro que não é arquiteto. Vários. Felizardo, Cláudio Levitan. Basicamente todo mundo era artista e era a coisa mais parecida que os artistas poderiam ter como profissão. O Zé Antônio também fez Arquitetura por um tempo e ele colaborava na Caldas Júnior, no jornal Folha da Tarde. E ele me disse que a Caldas Júnior estava abrindo um jornal novo, matutino, e que precisariam de chargista. Era a Folha da Manhã. Levei meus desenhos e mostrei para o Bendati, editor gráfico, ele aprovou o material e fui contratado. Minha primeira tarefa foi ilustrar a coluna Olheiro, assinada pelo Lauro Quadros, mais uma vez sobre futebol. Um dia me propuseram e topei fazer uma charge de esportes. Isso já é 1972.

Edgar Vasques - Desenhista Crônico Foto: Igor Sperotto

EC – Mas e o Rango, como nasceu?
Vasques – Dois anos antes, na faculdade de Arquitetura. A partir do Centro Acadêmico (Dafa), fizemos uma revista. Eu, para colaborar na revista, na hora de inventar essa participação,  atendi uma inquietação minha. Na época, eu morava na Rua da Praia, em frente ao Hotel Majestic, onde é hoje a Fundação Mario Quintana. Pra chegar na Ufrgs eu subia a Rua da Praia até a Praça Argentina vendo a miséria. O Centro já estava em decadência. Marginalizados de todo tipo. Gente dormindo na rua. Coisas que via desde criança perto da Igreja das Dores. Meu pai era um cara socialista e fornecia o lado teórico. Minha mãe era católica de esquerda achava que ser católico sem se preocupar com as questões sociais era incompatível, ia na linha do dom Élder Câmara. Então eu tinha um embasamento teórico-familiar e essa coisa de ver o “miserê”. Então com a chance de desenhar para a revista veio à tona esse personagem, que é um miserável, que vivia na rua, no meio do lixo, comendo e se abrigando neste mesmo lixo. Isso me impactava bastante e ninguém falava nisso. A imprensa sob censura da ditadura era ufanista. A miséria ocupava as ruas, mas a propaganda mostrava o “Brasil grande”, uma “corrente pra frente”, Brasil tri-campeão, milagre econômico. Dessa contradição nasceu o Rango, justamente pra lidar com essa contradição. E Rango é uma gíria que quer dizer comida originária da palavra rancio, que era a comida rançosa dos soldados legionários romanos que acabou virando rancho. Nos quartéis, até hoje tem a hora do rancho. E rancho também deu nome ao lugar em que se come. E  batizei assim o personagem e fiz os primeiros quadrinhos para a revista da Arquitetura, em 1970.

EC – E as charges esportivas?
Vasques – Na Folha da Manhã  eram basicamente dois personagens, um pro Grêmio e um pro Internacional. O do Grêmio era um Passarinho Tricolosso, um super-heroi fracassado que se achava o máximo e se dava mal, porque naquela época o Grêmio não ganhava nada. O ajudante dele era o Azulão, um passarinho de chuteirinhas, que ficava no ombro dele fazendo o papel de consciência crítica. E eu, puto da cara, porque sou gremista e só me dava mal, então fazia aquelas charges com raiva.  O colorado era a Galera, era um barquinho com os carinhas remando. Acabou que o Tricolosso caiu e o Azulão assumiu o protagonismo. Daí, conforme as vicissitudes do futebol, Azulão e a Galera interagiam.

EC – Como foi substituir o Verissimo?
Vasques – Dois anos depois, o Elmar Bonnes, o Bicudo, que era o chefe da redação me pediu para substituir um jovem colunista no jornal, que sairia de férias, e não havia interino. O colunista se chamava Luis Fernando Verissimo e já era uma estrela em ascensão.  O Elmar disse “tu és o único outro humorista aqui, vai lá”. Eu pensei: “putz, e agora! E fui. Saíam coisas como no dia em que morreu Picasso: “quem nós vamos copiar agora?”. Muito cubista que eu era (risos). Daí pensei. Esse negócio não vai dar certo. Então disse pro Bonnes: “Tenho esse personagem aqui que criei na faculdade. Nesse meio tempo o Rango tinha pegado na Ufrgs. Tinha até um cara que pintou o Rango numa jaqueta. Meu primeiro fã. Ou seja, o Rango tinha batido no meio universitário, mesmo que tivesse saído em apenas um número da revista, porque faltou pernas pra fazer o segundo. Na real, por relaxamento. Mas o Elmar disse; “faz aí”. Foi então que comecei a colocar o Rango na Folha da Manhã durante aquele mês. Daí volta o Verissimo e eu me recolho à minha insignificância e às minhas charges da dupla grenal. Só que começaram a chegar cartas para o Jornal pedindo o Rango. Resolveram me dar um espaço na última página do jornal, foi então que o personagem deslanchou na Folha da Manhã por mais uns dois anos.