Em meio ao caos prisional no país, imprensa faz seu papel mas ganha quem gritar mais alto

Renato Sérgio de Lima

Entre janeiro e junho de 2019 foram produzidas no Brasil, ao menos, 161.850 notícias, em 110 veículos de imprensa diferentes, a partir da expressão “segurança pública”. Dessas, 17.853 são conteúdos inéditos, gerados em sua maioria por redações e equipes do jornalismo profissional. Cada reportagem sobre segurança pública foi replicada, em média, 9 vezes, sem contar a interação das redes sociais, o que demonstra a importância da imprensa para o debate público do país.

Esses dados fazem parte de levantamento especial feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que nas próximas semanas irá lançar o “Fonte Segura”, uma newsletter semanal de análise sobre os rumos da segurança pública no Brasil e no mundo, e que usará tais dados para cruzá-los com a atuação governamental, considerando gastos públicos e agendas de autoridades públicas, entre outras dimensões.

O estudo utiliza a técnica de inteligência artificial conhecida como ‘Structural Topic Model’ para gerar tópicos a partir de agrupamentos de palavras presentes nos textos das reportagens. Pela técnica, foram encontrados 12 temas de segurança pública: decreto das armas; mortes violentas; Ministério da Justiça e Congresso; sistema prisional e organizações criminosas; educação; denúncias e investigações sobre Flávio Bolsonaro, Queiroz, Lula; pacote ‘anticrime’; Bolsonaro; Lava Jato; meio ambiente e questão indígena; outros temas do MJ; violência contra a mulher.

E aqui, uma conclusão importante em uma semana em que, mais uma vez, o massacre de presos em Altamira, no Pará, nos lembrou da profunda crise dos presídios brasileiros: a cobertura da imprensa sobre o caos prisional no Brasil foi responsável por, em média, 13,3% da cobertura sobre segurança pública no primeiro semestre. Ou seja, entre janeiro e junho, o tema não foi esquecido pela imprensa mas, em sentido inverso, pouco ou nada foi feito pelas autoridades para que a situação fosse evitada. Ao menos na segurança pública, nada mais parece chocar e mobilizar as autoridades.

Mas voltando aos dados do Fonte Segura, em janeiro a crise penitenciária no Ceará faz com que 17,6% da conteúdo da mídia fosse relacionada ao tópico sobre sistema prisional. Já em fevereiro, o pacote “Anticrime” ganha quase três vezes mais destaque na mídia, indo de 5,9% do conteúdo da mídia no mês de janeiro para 17,7% no mês seguinte. Em março, a prisão dos acusados pela morte de vereadora carioca Marielle Franco e o Dia Internacional da Mulher fizeram com que a conteúdo midiático no período estivesse concentrado nestes temas, com respectivamente 19,9% e 17,3% da conteúdo total do mês.

Em abril não houve um grande destaque que dominou a agenda da segurança. Os temas mantiveram-se equilibrados na cobertura de imprensa. Porém, percebe-se o crescimento de notícias relacionada às negociações do ministro Sergio Moro com o congresso de 4,3% em março para 11,1% em abril. E, em maio, o conteúdo sobre MJ e congresso ficou em evidência na mídia devido a readequação administrativa da COAF, com 36,9% do material jornalistico (esta foi a maior concentração temática em um único mês).

Por fim, em junho, a divulgação de diálogos de integrantes da força-tarefa da Lava Jato geraram um alto crescimento de materiais da mídia sobre a investigação. A porcentagem de do conteúdo sobre a operação foi de 1,9% em maio para 32,2%.

Já no Twitter, as notícias sobre segurança ganham outros sentidos e o factual cede espaço para a guerra de narrativas e que, sozinho, mais confunde do que informa o tomador de decisão. Em fevereiro, alegítima defesa que autorizaria a morte sumária de criminosos é a principal referência em tweets sobre o “Pacote Anticrime”, com 15%; sistema prisional e organizações criminosas são citadas em menos de 1% das postagens.

Em março, houve repercussão sobre o tiroteio em Suzano e a prisão dos acusados do assassinato da Marielle. Porém, o debate não conseguir sair do descrição dos fatos. Apenas 1% dos tweets sobre Suzano citavam o “desarmamento” e 8% dos tweets sobre Marielle citavam as “milícias”. As redes preocupam-se menos com as causas reais e mais com marcações ideológicas de opinião.

Em abril, em um sinal de movimento planejado, começam a surgir as hashtags de apoio a Moro com relação a COAF no MJ. Em, #CoafComMoro, há uma ligação com Bolsonaro, 11% de citações; e uma visão de que o congresso é visto como culpado por solicitar acordos, 5% de menções. Em maio, o debate no Twitter faz uma separação forte entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro.

Existe uma personificação da questão da COAF em torno de Sergio Moro, sendo citado em 66% dos tweets, enquanto Bolsonaro é citado por 32%. Porém, na crítica às negociações com o congresso, essa relação é invertida. Na hashtag #CentrãoBlocodeLadrão, Bolsonaro é citado por 23%, enquanto Moro é lembrado em apenas 6% em dos tweets. Há uma percepção de que o congresso esta sabotando o governo Bolsonaro. Nas postagens sobre o Decreto das Armas (08/05), Bolsonaro é colocado em primeiro plano: 43% dos tweets o citam, Moro é citado em apenas 6%.

Os dados aqui apresentados mostram que, por trás das notícias e da interação nas redes, muitos temas e questões políticas circulam e que é necessário jogar luz para o que sido feito nos bastidores da segurança pública. A segurança pública continuou como uma das principais preocupações da sociedade brasileira e não foi esquecida pela imprensa e pelas redes sociais.

O drama, infelizmente, é que, em termos práticos, o governo fez muito pouco para reduzir o medo e a violência no país e, quando fez, foi contra as evidências, como no caso dos decretos para posse e porte de armas de fogo e/ou quando desconsidera o enorme esforço que os estados e o Distrito Federal estão fazendo e que, desde início de 2018, contribui [não exclusivamente, é claro] para a redução dos índices de violência no país.

Não é à toa que vivemos um tempo social que tem na indiferença uma de suas marcas registradas. Não existe empatia ou pressupostos éticos que gere indignação e ação frente à violência e às profundas desigualdades e vulnerabilidades sociais, econômicas, raciais, geracionais, de gênero e institucionais que nos acometem enquanto nação. Mesmo com forte cobertura da imprensa, o caos prisional e a crise da segurança pública são temas ainda pouco discutidos com base em evidências e planejamento estruturado de ações. Ganha quem gritar mais alto!