Frente a recordes de feminicídios, policiais civis trabalham no limite em DEAMs do Rio Grande do Sul
A UGEIRM Sindicato tem realizado, desde março deste ano, uma caravana de visitas às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) no Rio Grande do Sul, a fim de dialogar com policiais civis que atuam nas unidades, ouvindo suas demandas e tratando sobre a realidade do trabalho cotidiano. Para além da falta de efetivo, os policiais civis apontam desvio de função no processo de colocação das tornozeleiras em agressores de mulheres, assim como ausência de diálogo por parte do governo do Estado sobre as reais demandas das unidades e dos servidores.
O Rio Grande do Sul conta hoje com 24 DEAMs, sendo duas localizadas em Porto Alegre, além de quatro Delegacias de Polícia de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPPGVs), com atribuição de DEAM. Ao todo, em abril de 2026, as unidades somavam um total de 178 policiais civis em atividade – um número que deveria ser, pelo menos, o dobro, considerando a demanda de trabalho.
“O cenário é caótico. Temos delegacias com apenas quatro servidores trabalhando”, explica Neiva Carla Back, diretora da UGEIRM. “Esses números refletem a falta de valorização desses profissionais que, mesmo assim, entregam um trabalho de excelência”.

Polícia Civil investigou e prendeu todos os responsáveis por feminicídios
Nos primeiros meses de 2026, o RS viu dados alarmantes crescerem: até o dia 11 de maio, 33 feminicídios haviam sido registrados. O mais recente aconteceu em Porto Alegre, no bairro Tristeza, quando uma mãe de 22 anos foi baleada no rosto no sábado (9), na véspera do Dia das Mães.
Esses números mantiveram o estado como líder na Região Sul em crimes dessa natureza, posição que se mantém desde 2021, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ainda assim, a Polícia Civil gaúcha investigou e prendeu todos os feminicidas envolvidos.
“Quando nos deparamos com uma explosão de casos de violência contra a mulher, como agora em 2026, os olhos da sociedade se voltam especialmente à Polícia Civil”, destaca Neiva. “Se cria a ideia de que a responsabilidade de combater esses crimes é somente dos policiais civis, mas não é. Quando uma mulher morre, é porque toda uma rede de proteção falhou”.
Colocação de tornozeleiras desvia policiais de investigações
Implementado em 2023 pelo governo do Estado, o programa Monitoramento do Agressor atribuiu aos policiais civis a responsabilidade de ‘tornozelamento’ dos criminosos, que passa por uma série de diligências, que vão desde a busca pelo equipamento em diferentes unidades policiais à instalação da tornozeleira e entrega do ‘celular do pânico’ para a vítima.
Para os policiais, no entanto, essa função tem comprometido a sua atuação no processo de investigação e apuração dos casos, já que, muitas vezes, não há tornozeleiras disponíveis nas unidades ou em locais próximos. Isso faz com que os servidores tenham que se deslocar pelo estado para buscar os equipamentos, que podem estar em qualquer município gaúcho.
“Quando chega uma liminar exigindo a colocação de tornozeleira em algum agressor, nós não podemos dizer que não temos o equipamento”, revela João*, policial civil que atua em DEAM na Região Metropolitana. “Nós fomos orientados a sempre dizer que temos tornozeleiras. Só que existe um prazo para elas serem colocadas, então precisamos sair correndo para buscar em outras cidades, o que muitas vezes pode levar mais de um dia”.
De acordo com a UGEIRM, esse programa não deveria ser atribuído à Polícia Civil diante da grave realidade enfrentada pela instituição, que sofre com falta de efetivo e precariedade estrutural em todas as regiões do estado.
“Monitorar agressores é importante”, destaca Neiva. “O problema é que o programa parece não ter sido planejado de forma adequada. Ele impõe uma série de diligências que sobrecarregam os policiais civis e acabam colocando servidores em desvio de função. Muitas DEAMs já enfrentam dificuldades básicas de estrutura, logística e pessoal para atender a própria demanda cotidiana. Mesmo que tivéssemos três vezes mais efetivo, o programa ainda apresentaria problemas estruturais. Por isso, ele precisa ser urgentemente reavaliado pelo governo”.

Em visita a uma das Delegacias Especializadas da Região Metropolitana, uma policial que atua na unidade explicou à UGEIRM que o processo de colocação do equipamento também compromete o ambiente das delegacias: diferentes agressores e vítimas acabam convivendo e circulando no mesmo espaço, em um lugar que deveria ser de acolhimento para as mulheres, seus filhos e demais familiares.
“A gente está deixando de atender vítimas para fazer a custódia de agressores, porque alguns deles não têm onde carregar as tornozeleiras e acabam vindo aqui” relata Aline*. “Um dia, um deles ficou horas na nossa sala das crianças, enquanto a gente fazia o atendimento de outras mulheres em outras salas. Imagina tu vir até uma DEAM para denunciar uma situação que tu viveu e dar de cara com um agressor?”, questiona.
“Quando as mulheres chegam aqui, elas chegam com sonhos destruídos”, relata Jorge*, policial civil que atua na Região Metropolitana. “Aquele sonho da família feliz morre quando a violência começa. Por isso, lidar com casos de violência contra a mulher não é a mesma coisa que registrar uma ocorrência de furto, por exemplo. Precisamos de tempo, de cuidado, e correr atrás de tornozeleiras afeta tudo isso”.

Soluções sem embasamento para equipes sem efetivo
Para além do desvio de função com o processo de colocação das tornozeleiras, a Polícia Civil, em especial nas DEAMs, vive em um cenário preocupante de falta de efetivo. Para se ter ideia, hoje, a instituição conta com 5,4 mil policiais em atuação, em uma realidade que, segundo a lei estadual, deveria ser de aproximadamente 9,5 mil. Nas DEAMS, somente 178 policiais atuam nas 28 unidades espalhadas pelo estado.
“Nós temos plantonistas afastados, perdemos pessoal e, mesmo assim, as ocorrências continuam aumentando”, revela Jonas*. “Para a gente conseguir ficar no zero a zero, digamos assim, a gente precisaria de pelo menos mais umas quatro pessoas trabalhando”, completa o policial civil, que atua na Região Metropolitana em uma equipe de aproximadamente dez pessoas.
Entre as medidas propostas em março pelo governo do Estado frente ao aumento no número de feminicídios em 2026, está a extensão do horário de atendimento das DEAMs de Caxias do Sul, Canoas, Passo Fundo, Santa Maria e Pelotas, das 18h para às 21h, além da reabertura da unidade de Rio Grande.
“Toda vez que uma crise como essa se instala, com a pressão da mídia e da opinião pública, o governo reage sem planejamento ou inteligência”, critica Fábio Castro, vice-presidente da UGEIRM.
“São apresentados planos superficiais, com verbas insuficientes e sem pessoal, como é o caso da extensão do horário de atendimento das DEAMs. Se tivéssemos pessoal, se fosse apresentado um plano com reposição de efetivo, isso poderia ser viável, mas, como sempre, o Estado age por desespero, deixando tudo no discurso. Tanto é que, dois meses depois, a proposta não foi implementada e nem temos qualquer orientação sobre como ela vai se dar”, completa.

A nova Lei Orgânica das Polícias Civis, instituída nacionalmente em 2023 e que estabelece diretrizes gerais para o funcionamento de todas as polícias civis do Brasil, exige que os estados adaptem suas legislações locais. Entre as novas regras, a abertura de novas unidades policiais deve seguir um planejamento estratégico, considerando critérios técnicos como população, extensão territorial do local, densidade demográfica, especialização da atividade investigativa e índices analíticos de criminalidade, a fim de evitar a subdivisão e fragilização dos órgãos já estabelecidos, que hoje contam com déficit de efetivo.
No Rio Grande do Sul, no entanto, a lei não está sendo cumprida, ainda que as partes em vigência já deveriam estar sendo implementadas, assim como a regulação de trechos que são de competência do Estado.
Para Neiva, isso escancara a falta de diálogo e comprometimento por parte do poder público com os servidores. “Ninguém pensa ou pergunta aos policiais civis como eles estão trabalhando, se as estruturas estão boas ou que tipo de apoio precisam. Pelo contrário: são apresentadas propostas mirabolantes, sem qualquer planejamento ou consulta aos policiais”.
E isso é sentido pelos servidores no dia-a-dia. Uma policial que atua no interior do estado comentou sobre a entrega de 48 novas viaturas pelo governo do Estado, ainda no final de março: “Nós tanto não somos ouvidos, que o modelo da nova viatura que recebemos não é boa para a nossa unidade”, relata Fernanda*. “Temos muitos quebra-molas, estrada de chão… Como é que vamos trabalhar aqui no interior com um carro baixo, percorrendo rua de chão batido?”, questiona.

‘A polícia sozinha não vai diminuir os feminicídios no RS’
Ao todo, os 33 criminosos responsáveis por todos os feminicídios registrados em 2026 foram investigados e presos pelos policiais civis. Além disso, atualmente, mais de 1.200 agressores são monitorados com tornozeleira eletrônica no Rio Grande do Sul.
“Só que prender os agressores não é o suficiente”, explica Neiva. “Por mais que a Polícia Civil esteja fazendo seu trabalho, os números continuam crescendo, porque a política de prevenção ainda é muito deficitária”.
Extinta em 2015, durante o governo de José Ivo Sartori, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, responsável por estabelecer uma rede de acolhimento, empoderamento e proteção transversal às vítimas de violência, só foi recriada em 2025, após oito anos do governador Eduardo Leite estar à frente do Estado. Essa medida só se deu após o marco de dez feminicídios registrados no feriado de Páscoa daquele ano, que acendeu um alerta às autoridades.
“Para enfrentar o problema de maneira efetiva, precisamos que todas as frentes, sejam elas secretarias, prefeituras, o Poder Judiciário, e tantas outras, estejam trabalhando em conjunto, de modo transversal”, destaca a diretora. “O que nós queremos é que as mulheres parem de serem mortas”.
*Os nomes dos policiais civis foram alterados para preservar suas identidades.

UGEIRM promove seminário sobre impacto nos policiais que atuam no atendimento especializado
Considerando esse cenário, UGEIRM promove, amanhã (15), uma atividade de debate sobre os impactos do aumento da violência contra a mulher na saúde e nas condições de trabalho dos policiais civis que atuam no atendimento especializado.
O encontro será um espaço de escuta, troca de experiências e reflexão sobre a realidade enfrentada diariamente por esses servidores.
Confira os detalhes:
📍 Data: 15/05 (sexta-feira)
⏰ Horário: a partir das 9h
📌 Local: Sindibancários — Rua General Câmara, 424, Centro Histórico, Porto Alegre
🗓️ Programação
🕘 09h — Início
Roda de Conversa e Escuta – “Bastidores do Atendimento: como trabalham e o que sentem os/as policiais que atuam nos crimes contra a mulher”
🕑 14h — Mesa de debate – “Condições de trabalho e adoecimento físico e mental dos profissionais que atuam no atendimento especializado às mulheres”
🥂 Encerramento com coquetel e confraternização.
📝 INSCRIÇÕES: através do link.
