Brasil registra recorde de mortes violentas em 2017: sete a cada hora

O Brasil registrou 63.880 mortes violentas em 2017. É como se, a cada hora, sete pessoas fossem mortas de forma intencional no país. O índice é o maior desde 2006, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começou a contabilizar estatísticas criminais de todo o país, e foi 2,9% maior do que o contabilizado no ano passado.

O resultado foi apresentado à imprensa nesta quinta-feira, durante a divulgação do 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, editado pelo Fórum. A estatística de mortes violentas intencionais envolve homicídios, latrocínios, lesões corporais que resultaram em morte, além de mortes decorrentes de confrontos policiais.

É a primeira vez que a taxa de mortes violentas ultrapassou o patamar de 30 casos por 100 mil habitantes. Em 2017, o índice ficou em 30,8. A título de comparação, a média mundial é de 7,5 mortes por 100 mil habitantes, segundo estudo da ONG internacional Small Arms Survey, realizado com dados de 2016.

Uma das possíveis explicações para o aumento no número de mortes violentas no país é uma guerra aberta de organizações criminosas que disputam mais mercado, indica o relatório. Facções criminosas estabelecidas em São Paulo e Rio têm se expandido para o Norte e Nordeste, onde a briga toma as ruas.

Buraco de bala no carro onde estava a vereadora Marielle Franco, assassinada em março – Pablo Jacob / Agência O Globo (15/03/2018)

Doze estados registraram aumento no número de mortes violentas, segundo o relatório, a maioria no Norte e Nordeste: Ceará, Acre, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Roraima, Amapá, Amazonas, Pará e Alagoas. Rio Grande do Norte, Acre e Ceará aparecem como os estados mais violentos. O Rio, sob intervenção federal desde o início do ano, figura na 11º posição.

— Não podemos surfar no medo que esse debate provoca hoje no país. Tem solução. Mas precisamos combater o crime organizado com toda energia e garantir a punição dos responsáveis,modernizar o sistema prisional, priorizando que a violência seja o grau máximo a ser punido. Segurança é um direito social e universal — afirma Renato Sérgio de Lima, diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Além do excesso de crimes, o relatório também revela a dificuldade para resolver os assassinatos: apenas 8% dos homicídios no país são resolvidos.

A falta de uma coordenação entre as polícias Militar e Civil, segundo os responsáveis pelo levamento, prejudica o combate à violência. Em alguns estados, há o problema de tecnologia para registro dos dados. Em outros, como Rio e São Paulo, burocracia e falta de um esforço unificado dificultam o trabalho policial.

— Não é responsabilidade só da polícia. A organizações precisam ser coordenadas, sem apenas se escudar na atuação do policial da ponta — diz Lima, que continua:

— O Brasil lida com receitas da primeira metade do século passado em segurança pública. A legislação que regula as polícias é, em sua maioria, anterior à Constituição de 1988. O da Polícia Militar é de 1983. O inquérito que faz com que as polícias civis e militares atuem e registrem um fato criminal é de 1871, do Império. E o Código Penal é do século passado. O que os próximos governantes vão dizer sobre isso? Demagogia não sobrevive à violência. Os candidatos devem pensar sobre o que vão fazer.

Na visão dos pesquisadores, usar a polícia apenas para confronto com o crime tem provocado resultados devastadores na área de segurança pública. Só no ano passado foram contabilizados 5.144 mortes decorrentes de intervenção policial, um número 21% maior do que no ano anterior. Ao mesmo tempo, 367 policiais morreram em confrontos com suspeitos, queda de 4,9% em relação a 2016.

— Temos uma polícia que mata muito, e que morre muito também — diz Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum.

Chama a atenção, também, o número de armas apreendidas pela polícia no país: 119.484, das quais 13.782 passaram para o circuito ilegal.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O relatório destacou os casos de violência contra a mulher: 4.539 mulheres foram assassinadas no ano passado — ao menos 1.133 casos foram registrados como feminicídios. Em 2017, houve ainda 60.018 registros de estupros, um crescimento de 8,4% em relação a 2016.

— É um dos piores dados que temos em relação a outros países. E com muita subnotificação (quando a pessoa deixa de registrar boletim de ocorrência), as mulheres têm medo — diz Samira.

Pela primeira vez, o anuário também tabulou os dados de lesão decorrentes de violência doméstica: foram 606 casos por dia, um total de 221.238 no ano passado. O número pode ser ainda maior, já que nem todos os estados passaram os dados para os pesquisadores.

Fonte: G1