Garagem Hermética: livro reúne memórias de um espaço lendário da cultura underground de Porto Alegre

Antonio Padeiro, que trabalhou como porteiro do Garagem Hermética, conta um pouco de sua experiência no bar que marcou história em Porto Alegre.

“Quando cheguei naquele bar, tudo parecia mágico: sexo, drogas, cultura e muita música. Existia um senso de liberdade que nunca tinha visto na vida, aquilo era muito envolvente. Uma liberdade que passava despercebida pelos olhos da repressão – talvez por se tratar dos filhos da sociedade, talvez por terem a pele mais clara. O que sei é que foi um grande engano meu achar que a minha presença e a pele parda, cheia de gírias e dialetos periféricos, também fosse passar despercebida…”

O bar em questão é um espaço que faz parte da história da cena underground porto-alegrense, nos anos 90 e 2000, o Garagem Hermética. E o relato é de Antonio Padeiro, que decidiu transformar em livro a sua relação profissional e pessoal com o Garagem. “BARROS386, Crônicas de Garagem” conta um pouco dessa história.

Nascido em Porto Alegre, em 1975, Antonio Padeiro é graduado em Letras pela FAPA, documentarista, roteirista e se considera um entusiasta da literatura marginal. Ele  trabalhou como porteiro do bar Garagem Hermética, um dos berços da cultura underground da capital gaúcha. Além disso, foi percussionista do grupo Da Guedes. Na televisão apresentou, entre outros, o programa de humor Mistura Fina, dirigiu e atuou no seriado Poa RS, primeira série de tv produzida no Estado. Também participou de peças de teatro, curtas e longas metragens como: “O Homem que Copiava”, do diretor Jorge Furtado, mas ele considera que foi mesmo na literatura que encontrou sua verdadeira paixão: a escrita.”

Antonio Padeiro (Foto: Martins Figueiredo/Divulgação)

O livro “BARROS386, Crônicas de Garagem” (Editora VamoDale) foi lançado dia 11 de dezembro, no Café La Faísca, em Porto Alegre. As crônicas reunidas na obra registram um período que segue vivo na memória de muitos, daqueles que lembram do que ocorria nas noitadas no Garagem como brinca o autor. Na orelha do livro, José Falero escreve:

“Fechado em 2013, após 21 anos de existência, o Garagem jamais encerrou suas atividades na memória dos muitos que o frequentaram e no imaginário dos outros tantos que apenas ouviram falar dele à distância. E, mesmo nesse plano abstrato onde em que o bar ainda funciona a todo o vapor, ele mantém em torno de si a aura controversa que sempre lhe foi característica. É o que percebemos neste Barros 386: Crônicas de Garagem. (…) Antonio Padeiro não nos fala apenas sobre um bar inanimado: ele nos fala sobre as gentes que lhe deram vida.”

E Luis Augusto Fischer acresenta na apresentação:

“Esse esforço do Padeiro é também um desenho nítido da trajetória dos sonhos de uma geração, de uma classe, de um indivíduo. Uma espécie de confissão — e confissão, desde sempre, é um estilo de texto, oral ou escrito, que deixa o ouvinte/leitor em uma posição nítida: abre aí o teu coração que eu quero saber. E olha, o Padeiro tem um jeito muito distinto, preciso, fino e irônico de lidar com a matéria que aborda, por mais dura e cortante que seja”.