GZH retoma discurso do déficit da Previdência e UGEIRM alerta para pressão sobre novo governo
Sindicato critica abordagem da reportagem, questiona interesses do mercado financeiro e defende mobilização para resistir a qualquer ataque à aposentadoria dos (as) Policiais Civis
Uma reportagem publicada pelo portal GZH sobre a Previdência dos servidores públicos do Rio Grande do Sul retoma uma abordagem que vem sendo utilizada há anos pelos grandes veículos de comunicação para justificar a retirada de direitos do funcionalismo. Ao destacar, já no título, um déficit atuarial de R$ 135,9 bilhões, a matéria reforça a percepção de que as aposentadorias dos servidores representam um problema para as finanças públicas.
Para a UGEIRM, a publicação também precisa ser analisada diante do novo cenário político estadual, após a eleição de Luciano Zucco (PL) para o governo do Rio Grande do Sul. O Sindicato avalia que a insistência nesse discurso pode funcionar como instrumento de pressão sobre o futuro governador, favorecendo políticas de austeridade e a ampliação do espaço do mercado financeiro na Previdência.
A UGEIRM não questiona a necessidade de transparência sobre as contas previdenciárias. O problema está na maneira como esses números são apresentados e nas conclusões políticas construídas a partir deles. Quando o debate se concentra nos déficits e nos custos para o Estado, deixando em segundo plano sua função social, abre-se caminho para justificar novas reformas e mais sacrifícios para os servidores.
Déficit caiu quase R$ 30 bilhões, mas destaque ficou para o número negativo
Um dos aspectos mais reveladores da reportagem é a escolha do enfoque. Embora o título destaque o déficit atuarial de R$ 135,9 bilhões, os próprios dados apresentados pelo IPE Prev mostram uma redução expressiva desse indicador.
Em 2025, o déficit atuarial dos fundos financeiros Civil e Militar estava estimado em R$ 165,75 bilhões. Em 2026, caiu para R$ 135,87 bilhões. Isso representa uma redução de aproximadamente R$ 29,9 bilhões, ou 18%, em apenas um ano.
É importante esclarecer que o déficit atuarial não representa uma dívida de R$ 135,9 bilhões que o Estado precise pagar imediatamente. Trata-se de uma projeção de longo prazo, construída a partir de estimativas sobre receitas, despesas, expectativa de vida, evolução salarial e outras variáveis.
A própria reportagem reconhece que a redução do déficit aponta para uma situação mais equilibrada no médio e longo prazo. Entretanto, a escolha de destacar o número negativo no título reforça uma imagem de crise permanente da Previdência estadual.
Previdência não é apenas uma despesa: é um direito dos trabalhadores
Outro problema dessa abordagem é tratar os recursos destinados às aposentadorias como se representassem simplesmente um peso sobre o orçamento público.
A Previdência é um direito social, construído a partir das contribuições realizadas pelos trabalhadores ao longo de suas vidas. No caso do serviço público, também constitui uma responsabilidade do Estado enquanto empregador.
A reportagem informa que, no primeiro semestre de 2026, o Tesouro estadual precisou aportar R$ 4,4 bilhões para complementar o pagamento dos benefícios previdenciários. O dado é apresentado como uma pressão sobre as contas públicas. Entretanto, a necessidade de complementação financeira não significa, por si só, que os benefícios sejam excessivos ou que os aposentados recebam privilégios.
Além disso, a transição para o regime de capitalização cria uma situação particular: parte das contribuições dos novos servidores deixa de financiar diretamente as aposentadorias do regime antigo e passa a constituir reservas nos novos fundos. Esse processo produz custos de transição que precisam ser considerados em qualquer análise séria sobre o financiamento previdenciário.
Ignorar essa característica significa apresentar como simples desequilíbrio de despesas uma situação que também resulta de decisões políticas sobre a organização e o financiamento do sistema.
Servidores já pagaram uma conta pesada pelas reformas
A reportagem também deixa em segundo plano uma questão fundamental: os servidores públicos gaúchos já sofreram profundas perdas de direitos previdenciários nos últimos anos.
A reforma da Previdência do governo Bolsonaro, em 2019, e as mudanças promovidas pelo governo Eduardo Leite no Rio Grande do Sul endureceram as regras de aposentadoria e reduziram a proteção previdenciária de diversas categorias.
Para as policiais e os policiais civis, as consequências foram especialmente graves. Direitos históricos, como a paridade e a integralidade para diferentes situações funcionais, foram retirados ou restringidos. As regras de aposentadoria ficaram mais duras e as alterações no cálculo das pensões por morte atingiram a proteção das famílias. Como se não bastasse, aposentadas, aposentados e pensionistas passaram a enfrentar uma cobrança previdenciária ainda mais pesada.
No Rio Grande do Sul, a contribuição de 14% sobre a parcela dos benefícios que ultrapassa o salário mínimo representa uma verdadeira crueldade com quem trabalhou e contribuiu durante toda a vida funcional. São pessoas que dedicaram décadas ao serviço público e que, justamente no momento em que mais precisam de proteção, continuam tendo parte significativa de seus rendimentos retirada pelo Estado.
Antes de apresentar novamente os custos da Previdência como um problema a ser enfrentado, é preciso perguntar: quanto os servidores já perderam com as reformas anteriores? E até quando terão de continuar pagando essa conta?
Os interesses do mercado financeiro por trás do debate previdenciário
Em agosto, a UGEIRM já havia denunciado uma nova ofensiva da Rede Globo contra a Previdência dos servidores públicos. Na ocasião, o Sindicato alertou para a utilização de situações excepcionais de privilégios no serviço público como argumento para defender reformas que atingem a imensa maioria dos trabalhadores. A nova reportagem do GZH, veículo pertencente ao Grupo RBS, afiliado da Rede Globo no Rio Grande do Sul, precisa ser analisada também dentro desse contexto.
Na avaliação da UGEIRM, a repetição do discurso sobre os déficits previdenciários, justamente no momento de transição entre governos, pode contribuir para pressionar a futura administração de Luciano Zucco a aprofundar políticas de redução dos direitos previdenciários e ampliação da capitalização.
Existe um interesse econômico evidente do mercado financeiro na expansão dos sistemas privados de previdência. Quanto menores forem as garantias oferecidas pelo Estado, maior poderá ser a procura por planos complementares de aposentadoria, administrados por instituições financeiras e entidades previdenciárias.
O próprio Grupo RBS mantém uma entidade de previdência complementar, a RBSPrev, destinada aos seus participantes. Trata-se de uma entidade fechada e sem fins lucrativos, cuja existência demonstra que o grupo também possui experiência institucional com esse modelo previdenciário, embora isso não signifique participação direta no mercado de previdência aberta. É necessário questionar a quem interessa transformar a Previdência pública em um problema permanente e apresentar a capitalização como solução para as contas estaduais.
A experiência internacional demonstra que a transferência da responsabilidade previdenciária para o mercado financeiro pode produzir consequências sociais graves. O Chile, que adotou um modelo de capitalização individual durante a ditadura de Augusto Pinochet, tornou-se um exemplo dos riscos de transformar a aposentadoria em um produto financeiro, com benefícios insuficientes para uma parcela expressiva da população.
UGEIRM vai mobilizar a categoria para resistir a novos ataques à Previdência
Diante desse cenário, a Sindicato reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos dos (as) Policiais Civis. A UGEIRM vai mobilizar a categoria para resistir a qualquer nova tentativa de retirada de direitos, particularmente no que se refere à Previdência.
Para o vice-presidente da UGEIRM, Fabio Castro, as policiais e os policiais civis já sofreram perdas profundas com as reformas previdenciárias dos últimos anos. “Os servidores públicos já pagaram uma conta muito alta pelas reformas previdenciárias. Não podemos aceitar que os interesses econômicos das grandes instituições financeiras sejam colocados acima dos direitos de quem dedicou a vida ao serviço público. A UGEIRM vai mobilizar a categoria para resistir a qualquer novo ataque à Previdência e lutar pela recuperação dos direitos que nos foram retirados. O fim do confisco previdenciário sobre aposentadas, aposentados e pensionistas precisa estar no centro dessa luta”, afirma Fabio Castro.
O Sindicato destaca que a defesa da Previdência pública continuará sendo uma das prioridades de sua atuação. Além de impedir novos retrocessos, a UGEIRM seguirá lutando pela revisão das medidas que prejudicaram as policiais e os policiais civis ao longo dos últimos anos.
Fabio Castro finaliza afirmando que “os números da Previdência precisam ser discutidos com transparência, mas não podem servir de instrumento para justificar mais uma rodada de retirada de direitos. As policiais e os policiais civis gaúchos já pagaram uma conta alta demais. Agora, é hora de recuperar direitos, e não de perder ainda mais”.
