‘Você não Estava Aqui’ é um filme necessário e urgente ao estilo de Ken Loach

Uberização das relações de trabalho é o assunto do novo filme do cineasta britânico, o mesmo de “Eu, Daniel Blake”.

Um dos cineastas mais engajados do cinema mundial há praticamente cinco décadas, Ken Loach está sempre antenado com as mazelas da vida dos trabalhadores britânicos. Por isso, era uma questão de tempo para que o diretor abordasse a “uberização” das relações de trabalho em um de seus filmes. E é exatamente isso que ele faz em Você não Estava Aqui, que estreou no Brasil na última quinta (27). 

Além dos sonhadores que lutam por suas ideologias, os heróis do cinema de Loach são homens e mulheres da classe trabalhadora inglesa. Gente como a gente, que sofre com a burocracia, com os desmandos dos patrões, com a violência doméstica, com o preconceito, com as desigualdades sociais… Pessoas que querem apenas o que lhes é de direito.

Você não Estava Aqui chega na esteira de seu filme mais popular até hoje, Eu, Daniel Blake, que conquistou a prestigiada Palma de Ouro em 2016. E, assim como seu antecessor, critica a situação de abandono que o trabalhador vive hoje.

Abbie (Debbie Honeywood), Liza Jane (Katie Proctor), Seb (Rhys Stone) e Ricky Turner...
Abbie (Debbie Honeywood), Liza Jane (Katie Proctor), Seb (Rhys Stone) e Ricky Turner (Kris Hitchen): uma família em decomposição em nome do mercado.

Se em Blake o protagonista passava por um verdadeiro martírio burocrático para conseguir uma aposentadoria por invalidez, em Você não Estava Aqui o drama está na conivência do governo com os novos postos de trabalho sem vínculo empregatício que se aproveitam do crescente desemprego para explorar o trabalhador.

A trama se passa em 2018, em Newcastle. Desempregado e sem oportunidades na construção civil, Ricky Turner (Kris Hitchen) consegue uma vaga em uma empresa que faz entregas. Porém, segundo a tal empresa, ele não será um “empregado”, mas seu próprio patrão, fazendo seu horário e utilizando a própria van. Sem dinheiro para investir no veículo, ele convence sua esposa, Abbie (Debbie Honeywood), uma cuidadora de idosos também freelancer, a vender seu carro. 

Com o tempo, Ricky percebe que sua autonomia não condiz com a realidade, pois ele tem prazos cada vez mais absurdos para fazer sua entrega e que para ter dinheiro suficiente para ajudar em casa, precisa fazer turnos desumanos.

Se isso já não fosse suficiente, ele e Abbie, que também trabalha horas demais, precisam lidar com Seb (Rhys Stone) filho adolescente que quer largar a escola para ser grafiteiro, e a caçula Liza Jane (Katie Proctor), que sofre com a ausência cada vez maior dos pais.

É impossível não se indignar com as consequências devastadoras desse novo...
É impossível não se indignar com as consequências devastadoras desse novo tipo de relação trabalhista, que destitui o trabalhador de todos os seus direitos e corrói suas relações familiares.

Por mais que haja momentos até cômicos aqui ou ali, Você não Estava Aqui não é uma experiência agradável, no sentido de causar no espectador uma raiva que chega a ser quase insuportável em algumas cenas.

Mas isso é um grande mérito do filme, pois é exatamente essa a resposta que Loach quer de seu público. É impossível não se indignar com as consequências devastadoras desse novo tipo de relação trabalhista, que destitui o trabalhador de todos os seus direitos e corrói suas relações familiares.

No entanto, assim como em muitos de seus filmes, o tom didático/panfletário dos últimos trabalhos de Loach pode cansar. Seu cinema já foi mais humanista de uma forma mais sutil e poética, como no belíssimo Kes (1969) e em um período particularmente frutífero do diretor, na década de 1990, quando lançou, em sequência grandes títulos como Riff-Raff, Ladybird, Ladybird, Terra e Liberdade, Uma Canção para Carla e Meu Nome é Joe.  

Mesmo com esse pequeno porém, Você não Estava Aqui é um filme necessário e urgente, características que estão no DNA da produção de Loach, um cineasta também necessário e urgente (e aos 83 anos de idade!), ainda mais nos tempos obscuros que vivemos no mundo.