Artigo | De Olhos Abertos

Psicanalista fala sobre o documentário De olhos abertos, que aborda os 20 anos do Jornal Boca de Rua

Edson Luiz André de Sousa* Extraclasse |

A minha vida é simplesmente a sua, a minha vida é simplesmente a rua

Ceco , Rap do Boca de Rua

Ao assistir o filme de Charlotte Dafol , De olhos abertos, lembrei de Luis Buñuel e da cena emblemática do seu Cão Andaluz, com a navalha abrindo um corte profundo no olhar. Uma inundação de vozes e imagens surgiu como uma hemorragia profunda vinda de  dentro da cidade com tantas  reflexões sobre a vida, a luta, a sobrevivência, a solidariedade, a força, a esperança, a dor mas também a alegria.

A cena final é comovente com um dos integrantes do Jornal Boca de Rua, Paulo, descansando sobre uma pedra onde se lê um verso de uma canção de Raul Seixas “E no auge de minha agonia, eu citava Shakespeare”. Paulo está deitado, com os olhos fechados  e suas pernas se dobram para ocupar a exata medida da pedra. Contudo,  a expansão do seu corpo  acontece de forma vertical, uma ascensão do pensamento que reage heroicamente a queda do céu, para evocar aqui Davi Kopenawa. A posição de repouso em que está não é de passividade, mas de revolta, ocupando de forma irreverente seu lugar no mundo. Há uma leveza na cena, uma força, um desejo de que a cidade possa, em algum dia, acolher seus sonhos.

Vozes das ruas em primeiro plano

“De olhos abertos” é um documentário que conta a história dos moradores de rua de Porto Alegre que produzem e vendem há 20 anos o Jornal Boca de Rua. Um filme que coloca em primeiro plano tantas vozes, tantas histórias do subterrâneo desta cidade em que eles vivem e que desconhecemos.  Eles têm muito a dizer, e dizem com força, com sensibilidade, com inteligência. Lembrei-me de Milton Santos, quando lembra que estas pessoas têm um saber precioso sobre a cidade. Ganharíamos muito se pudéssemos escutá-las.

O filme busca dar nome à dor que elas sentem com tantas violências sofridas, abandonos, mortes, doenças, fome mas também tenta mostrar a beleza do laço solidário, das pequenas alegrias, da dignidade com que enfrentam tantas adversidades. A rua é como uma escola. Nas palavras de Paulinho “na rua se aprende coisas melhores e piores que no colégio.” Ele fala como um mestre samurai, com seus dois palitos enfiados no cabelo. Os samurais usavam estes palitos para segurar o capacete durante as batalhas e tornou-se um símbolo de status na sociedade japonesa. Todos ali são  protagonistas. O filme é de uma delicadeza impressionante, pois coloca todos que ali aparecem muito perto do espectador.  Eles nos olham de frente e, se os olhamos, têm assim a chance de saírem da invisibilidade em que se encontram. “O Boca é uma luta” diz Edisson. “ O jornal é tudo” evoca Leandro, “ O jornal é a porta de entrada na sociedade” lembra Aline.

A cidade vista do chão

Charlotte Dafol trabalha neste projeto há muitos anos. Certamente sua proximidade  contribuiu para a riqueza dos depoimentos. Ela filmou de janeiro a maio de 2019 e incluiu no filme imagens de arquivo  que contam também a história dos primeiros participantes do Boca. Eu tive a oportunidade de conhecer de perto um deles, o Ceco, que foi a São Paulo em um evento para protestar contra a chacina de sete moradores de rua assassinados com  golpes na cabeça em agosto de 2004.  Em uma das atividades na Câmara dos Vereadores em São Paulo, do qual participei na organização junto com Paulo Endo, Janaína Bechler e Fabiane Borges, Ceco tomou a palavra e fez uma fala comovente diante de um auditório lotado. A atividade foi aberta pelo jurista Hélio Bicudo, um histórico defensor dos direitos humanos. Até hoje, nenhum dos responsáveis desta chacina foi julgado .

Charlotte mostra a cidade ao rés do chão, nos aproximando do olhar destas pessoas. São muitas cenas onde só vemos os pés em movimento, os buracos nas calçadas como feridas abertas, as muretas armadas com metal impedindo o repouso, como os dentes de uma fera. Diante desta selvageria eles resistem como podem, e a maior resistência é continuar sonhando e desejando, como  mostra o final do documentário. Em uma das cenas  jogam futebol na calçada com uma alegria infantil , mostrando que eles sabem reinventar o espaço em que habitam. Todos denunciam o abandono em que vivem,  a violência da policia e mostram o quanto um lugar de palavra e de escuta  pode fazer diferença para a vida deles. Paulo sonha em ser vereador, Anderson entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Josi conseguiu uma casa para morar.

Coragem para seguir

Uma das pontuações deste filme que tocou especialmente é o suspiro de Josi no meio do seu relato ao narrar a sua epopeia para sobreviver a tanta violência. Uma pausa para retomar o fôlego, uma coragem para seguir buscando palavras onde sua dor possa repousar. Este suspiro faz outro furo em nosso olhar.

Neste tempo de ruínas em que o lugar da palavra se deteriorou em nosso país, ouvir as vozes desta Boca de Rua é uma esperança. Estamos diante de um grande filme que mostra  que proposições utópicas como  este projeto, coordenado por Rosina Duarte, ainda insiste em sonhar na construção de uma cidade mais justa e solidária. Como diz Anderson no filme “O que não dá para suportar é a injustiça”.

*Edson Luiz André de Sousa – Psicanalista. Analista membro da Associação Psicanalitica de Porto Alegre (APPOA). Professor titular do Instituto de Psicologia da UFRGS. Doutorado e Pós-Doutorado na Universidade de Paris VII. Autor entre outros de “ Uma invenção da utopia”, Lumme Editora, SP.

Edição: Extra Classe