Denúncia sobre presos em DPs do Estado será debatida na OEA
Sindicato de agentes da Polícia Civil, que busca interdição de 13 DPs no RS, participa de encontro no Uruguai nesta terça-feira com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos

A crise no sistema prisional, que deixa presos dias algemados em viaturas e se acotovelando em delegacias de polícia, terá novo capítulo nesta terça-feira. No Uruguai, o sindicato dos agentes da Polícia Civil se reunirá com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O objetivo é denunciar a atual situação, principalmente, em 13 DPs das regiões Metropolitana e Carbonífera das quais a entidade solicita interdição para o Corpo de Bombeiros e prefeituras.
Em Gravataí, a sede de três DPs que funcionam uma ao lado da outra, transformou-se em um presídio improvisado. Nesta segunda-feira, 41 homens estão detidos em viaturas em frente ao prédio. Com o acúmulo de presos no local, vítimas desistem de registrar crimes, moradores ficam assustados e comerciantes abandonam seus investimentos na região. Na sexta-feira, quando a reportagem esteve no local, 34 suspeitos de crimes disputavam espaço em quatro viaturas da BM. Mais sete chegaram à DPPA até esta segunda-feira. Para dormir, os detentos improvisam redes com cobertores. Além do pouco espaço, outra reclamação é a falta de condições de higiene.
Os PMs, que fazem a custódia dos presos, precisam conduzi-los até o interior da delegacia, onde ficam os banheiros. As visitas de familiares também acontecem junto aos veículos. Um dos detentos disse que estava no local há um mês.
— Imagina ficar 30 dias algemado. Vai morrer gente aqui no verão — reclama.
— Consegue imaginar uma mulher ou uma criança, vítima de uma violência, ter de vir aqui e deparar com esse caos? — questiona presidente da Ugeirm, Isaac Ortiz.
No encontro em Montevidéu, o sindicato vai debater a denúncia, que chegou a ser encaminhada à comissão em fevereiro por conta da violação dos direitos humanos pelo governo estadual. Na época, levantamento da Ugeirm apontou que 80 presos eram mantidos nas delegacias. Desde então, a situação se agravou. Conforme o Departamento de Polícia Metropolitana, 171 detentos eram mantidos nas delegacias de Porto Alegre (2ª e 3ª DPPAs), Canoas, Alvorada, Gravataí, Novo Hamburgo, Viamão e São Leopoldo nesta segunda-feira.
— A questão aqui não são apenas os presos de forma precária, embora as condições sejam mesmo desumanas. Mas os policiais sofrem diariamente, expostos a doenças e riscos, assim como as pessoas que tentam registrar ocorrências — critica Ortiz.

“Situação é uma reprodução de como está o sistema penitenciário”, diz Ajuris
Esta não é a primeira vez que o caos no sistema penitenciário gaúcho é debatido pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da OEA — formada por membros de sete países, incluindo o Brasil. Em 2013, o Fórum da Questão Penitenciária denunciou a violação dos direitos humanos no Presídio Central. O pedido de providências , conforme a Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) ainda está em tramitação na comissão. Uma vistoria foi feita na semana passada pelos integrantes do fórum no Central e um novo relatório deverá ser enviado em breve à comissão.
— A situação do Presídio Central de lá para cá piorou. A estrutura é mesma e a população carcerária aumentou. As condições de violação de direitos humanos que já existiam aumentaram — diz o diretor do Departamento de Direitos Humanos da Ajuris, Mauro Borba.
Sobre os presos em delegacias, Borba afirma que a associação acompanha a situação com preocupação.
— Para além dos direitos humanos, essa situação é uma reprodução como está o sistema penitenciário. A criminalidade fora é comandada pelas facções de dentro do Presídio Central. É mais do que urgente que se tome medidas para enfrentar esse problema.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul também informou que oficiou o governo estadual cinco vezes por conta da situação nas delegacias. O secretário da Segurança Pública, Cezar Schirmer, prometeu na semana passada que até novembro os presos serão retirados das delegacias. O secretário relatou que determinou à BM, Polícia Civil e Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) que seja apresentado um plano de ações. As medidas a serem adotadas, no entanto, não foram detalhadas. Na sexta-feira, a secretaria oficializou a contratação de uma empresa para a construção do terceiro centro de triagem, em Porto Alegre, com capacidade para 112 presos.
Comércio sente os impactos da insegurança
Depois de ver as vendas despencarem pela metade desde o início do ano, uma comerciante de Gravataí decidiu que, em novembro, irá mudar a loja de móveis que mantém há cinco anos. A decisão de abandonar o prédio é uma forma de tentar recuperar os clientes que deixaram de frequentar o local por medo.
— A maioria das minhas clientes eram mulheres e ficavam com receio — relata.
Além da insegurança, segundo a empresária, nos dias de calor, o cheiro forte exalado de frente da Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), por conta das falta de condições de higiene, também incomodava os clientes. Para tentar driblar o problema, a lojista passou a fazer os atendimentos na área dos fundos da loja, mas não resolveu.
— Perdi 50% das minhas vendas. Era um ponto bom, mas vamos sair daqui por conta disso — lamenta.
Presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Gravataí (Acigra), Régis Albino Marques Gomes, afirma que outros comerciantes passam pela mesma situação.
— Claro que isso afugenta os clientes. As pessoas têm medo de passar perto. Caiu muito o movimento. Para o comércio está sendo horrível e para os moradores do entorno também.
O fato dos PMs precisarem permanecer em frente à delegacia, na custódia dos presos, também preocupa.
— Esses policiais poderiam estar patrulhando as ruas. É uma situação muito complicada que a gente não tem força para resolver.
O encontro
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) realiza entre esta segunda-feira (23) e sexta-feira em Montevidéu um encontro a convite do governo uruguaio. Na oportunidade, serão debatidos diversos temas relativos aos direitos humanos. O sindicato dos agentes da Polícia Civil conseguiu agendar uma reunião com a comissão. A CIDH é um órgão autônomo da OEA, com o objetivo de promover a defesa dos direitos humanos. Atualmente, é formada por representantes do Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Jamaica, México, Paramá e Peru.
As DPs

Na semana passada, a Ugeirm entregou o primeiro pedido de vistoria e possível interdição de delegacia, em São Leopoldo. Além de Gravataí, o sindicato pedem ainda que sejam vistoriadas pelos bombeiros e vigilância sanitária as delegacias de Taquara, Charqueadas, São Jerônimo, Alvorada, Viamão, Canoas, Novo Hamburgo e Porto Alegre ( 2ª e 3ª DPPAs, Departamento Estadual de Investigações Criminais e Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico).
Presos em DPs*
Porto Alegre (2ª e 3ª DPPAs) – 9
Canoas – 66
Alvorada – 12
Gravataí – 41
Viamão – 8
Novo Hamburgo – 19
São Leopoldo – 16
Total: 171
* Dado referente às cidades da região Metropolitana nesta segunda-feira
Fonte: Jornal Zero Hora
