Rede Globo retoma campanha contra a Previdência dos servidores
A edição desta quarta-feira (26) do Jornal Hoje, da Rede Globo, retomou o ataque à aposentadoria dos servidores públicos brasileiros. Depois da ampla campanha em defesa da reforma da Previdência do governo Bolsonaro e do apoio da RBS TV, sua afiliada no Rio Grande do Sul, à reforma promovida pelo governo Eduardo Leite, essas mesmas empresas de comunicação voltam agora suas baterias contra a aposentadoria dos servidores estaduais e municipais.
Em uma reportagem de cerca de dez minutos, o Jornal Hoje repetiu a velha fórmula utilizada para atacar direitos dos servidores públicos: pinçar situações específicas e apresentá-las como se representassem a realidade de todo o funcionalismo. Ao colocar no mesmo pacote servidores de mais de 5 mil municípios, dos 26 estados e do Distrito Federal, a reportagem constrói um cenário de privilégios que passa muito longe da realidade da imensa maioria dos trabalhadores do serviço público brasileiro.
A tática é a mesma de sempre: misturar a imensa maioria dos servidores, que recebe salários e aposentadorias muito distantes dos chamados “supersalários”, com uma pequena elite do serviço público que efetivamente possui remunerações e aposentadorias muito acima da média. Os privilégios existentes no topo são exibidos para convencer a população de que é preciso retirar direitos de quem está na base.
A reportagem chega a incluir nesse debate os trabalhadores rurais, cuja imensa maioria recebe benefícios próximos ao salário mínimo. Enquanto isso, as distorções existentes justamente nas carreiras mais bem remuneradas do Estado praticamente desaparecem da discussão.
Policiais Civis gaúchos já pagaram uma conta pesada
Antes de falar em uma nova reforma da Previdência, é preciso lembrar o tamanho da conta que já foi apresentada aos servidores públicos nos últimos anos.
A reforma da Previdência do governo Bolsonaro, aprovada em 2019, promoveu uma enorme retirada de direitos previdenciários. No Rio Grande do Sul, o governo Eduardo Leite aproveitou a mesma onda para aprovar sua própria reforma e aprofundar ainda mais o ataque aos direitos dos servidores estaduais.
Para os Policiais Civis gaúchos, as consequências foram dramáticas. Direitos construídos ao longo de décadas, que reconheciam as particularidades, os riscos e o desgaste da atividade policial, foram retirados ou duramente restringidos. Paridade e integralidade foram retiradas, regras de aposentadoria foram endurecidas e o cálculo das pensões por morte foi alterado, reduzindo a proteção das famílias dos policiais civis em diversas situações.
No Rio Grande do Sul, aposentados e pensionistas ainda passaram a sofrer com o aumento da contribuição previdenciária, que tem um dos maiores confiscos do país. Policiais Civis que trabalharam e contribuíram durante toda a vida funcional continuam tendo, depois de aposentados, uma parcela importante dos seus proventos retirada todos os meses.
Portanto, quando a Rede Globo volta a colocar uma “nova reforma da Previdência” no centro do debate, é preciso perguntar: o que ainda querem retirar? Uma nova reforma serviria para terminar o trabalho iniciado nos governos anteriores e avançar ainda mais sobre aquilo que restou da Previdência pública.
O enorme mercado que está por trás desse debate
Também é preciso observar o momento político em que essa campanha é retomada. Em pleno ano eleitoral, recolocar a reforma da Previdência na pauta ajuda a pressionar candidatos e futuros governos a assumirem compromissos com uma nova rodada de retirada de direitos.
E existe um gigantesco interesse econômico por trás dessa discussão. Quanto menor for a proteção garantida pela Previdência pública, maior será o mercado disponível para bancos, seguradoras, fundos de investimento e empresas que comercializam previdência privada. Instituições como Itaú e Bradesco, que possuem enormes interesses nesse mercado, também estão tradicionalmente entre os grandes anunciantes da televisão brasileira. É impossível discutir seriamente uma campanha pela redução da Previdência pública sem colocar sobre a mesa quem ganha dinheiro quando trabalhadores e servidores são empurrados para planos privados.
Chile mostra onde esse caminho pode terminar
Para entender onde esse projeto pode chegar, basta olhar para o Chile. Em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet, o país promoveu uma experiência radical de privatização da Previdência, substituindo o sistema público, em grande medida, por contas individuais administradas por empresas privadas.
Durante anos, o modelo foi vendido como exemplo para a América Latina. O resultado, porém, foi a chegada de milhares de trabalhadores à velhice com benefícios miseráveis, obrigando o próprio Estado chileno a ampliar novamente sua participação para garantir uma proteção mínima aos idosos.
Mesmo assim, a realidade dramática dos idosos chilenos aparece nos índices de suicídio. Levantamentos registraram taxas superiores a 16 suicídios por 100 mil habitantes entre chilenos com 80 anos ou mais, aproximadamente o dobro do índice encontrado no Brasil nessa faixa etária nos períodos analisados.
Esse dado é resultado direto do cenário de empobrecimento, insegurança econômica e desproteção social de uma grande parcela da população idosa, depois de décadas de um modelo que entregou a aposentadoria dos trabalhadores ao mercado financeiro. O Chile é um alerta do que pode acontecer quando a Previdência deixa de ser tratada como um direito social e passa a ser vista como mais um mercado a ser explorado.
O ataque não termina na Previdência do serviço público
A ofensiva contra as aposentadorias faz parte de um projeto mais amplo de redução do Estado, retirada de direitos dos servidores e precarização dos serviços públicos. E quem mais sofre com esse processo é justamente a população que depende da escola pública, do SUS, da assistência social e da Segurança Pública.
Não por acaso, depois da reportagem sobre a Previdência, o Jornal Hoje prevê para esta quinta-feira (27) uma nova matéria, desta vez sobre a reforma do Estado e uma nova reforma administrativa. A UGEIRM acompanhará essa nova reportagem e publicará uma matéria específica analisando mais esse capítulo da ofensiva contra os servidores e o serviço público.
Categoria precisa cobrar compromisso dos candidatos
Para a UGEIRM, os Policiais Civis precisam compreender o que está em jogo e se preparar para enfrentar mais essa ofensiva. Não basta impedir uma nova reforma. Depois de tudo que foi retirado nos últimos anos, é preciso colocar na pauta eleitoral de 2026 a recuperação dos direitos perdidos.
O vice-presidente da UGEIRM, Fabio Castro, destaca que a categoria precisa cobrar um posicionamento claro dos candidatos: “A nossa categoria precisa entender que existe um enorme interesse econômico por trás do debate sobre a Previdência. O enfraquecimento da Previdência pública abre um mercado gigantesco para os grupos que exploram a previdência privada. Já retiraram a paridade, a integralidade e outros direitos históricos da nossa categoria. Agora querem avançar sobre o que restou. Por isso, precisamos fazer o movimento contrário: cobrar dos candidatos um compromisso contra qualquer nova retirada de direitos e lutar para recuperar aquilo que perdemos.”
Fabio destaca que uma das prioridades deve ser a revisão das medidas impostas pelas últimas reformas: “Entre essas medidas está o fim do confisco previdenciário sobre os Policiais Civis aposentados, que trabalharam e contribuíram durante toda a sua vida funcional e hoje continuam tendo uma parcela significativa dos seus proventos retirada todos os meses. Os Policiais Civis já pagaram uma conta muito alta. A eleição de 2026 precisa ser o momento de cobrar dos candidatos um compromisso com a valorização dos servidores, com a defesa da Previdência pública e com a recuperação dos direitos que nos foram retirados.”
