Governo Leite extingue a atuação de unidade policial criada para agir contra assaltantes de banco

Formada na gestão de Sartori, a Força Gaúcha de Pronta Resposta durou pouco mais de um ano; decreto que regulamenta unidade ainda está em vigor, mas tropa hoje só existe no papel.

Criada para agir contra assaltantes de banco que aterrorizam cidades do Interior, a Força Gaúcha de Pronta Respostafoi dissolvida pelo governo de Eduardo Leite. Nos últimos meses, os agentes que compunham a tropa foram transferidos para funções administrativas ou auxiliares em  seus batalhões de origem. As 18 viaturas — sendo a maioria caminhonetes 4×4 — e armas foram repassadas à Brigada Militar.

Idealizada pelo governo de José Ivo Sartori para agir nos mesmos moldes da Força Nacional, a tropa gaúcha chegou a ter 75 policiais e atuou em mais de 100 municípios. Era chamada sempre que alguma cidade — especialmente as do Interior — viviam um período de aumento nos crimes. 

A equipe era composta majoritariamente por policiais militares e civis, que retornaram da reserva para trabalhar recebendo remuneração a mais, o chamado abono de incentivo a permanência. Também havia peritos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) e bombeiros.

Ao longo de 2019, agentes da tropa vinham relatando à GaúchaZH que o número de operações havia caído e temiam que a unidade fosse dissolvida, mas a informação foi negada pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). Em 29 de março, a pasta publicou em sua página uma nota em que dizia que a tropa estava atuando em Porto Alegre, chamado-a de “reforço importante”.

“A presença policial nas ruas para ampliar a tranquilidade dos cidadãos porto-alegrenses ganhou um reforço importante na última semana: a chegada da Força Gaúcha de Pronta Resposta (FGPR). A tropa de 55 integrantes já está atuando em auxílio aos efetivos regulares das áreas de cobertura do Comando de Policiamento da Capital”, relatava parte do texto.

Nesta semana, a SSP confirmou que em setembro todos agentes foram transferidos. A pasta, no entanto, nega que houve extinção, já que o decreto que institui a Força Gaúcha segue em vigor e os agentes podem ser chamados novamente. Na prática, agora, a unidade existe só no papel.

A SSP informou que parte dos servidores passou a atuar em funções administrativas e no controle de videomonitoramento, atendimento em delegacias de polícia, policiamento em escolas públicas estaduais, patrulhamento e fiscalização ambiental, além da gestão e guarda externa de estabelecimentos prisionais. A maioria foi para o Interior.

Secretaria da Segurança Pública / Divulgação
Força Gaúcha atuando em Pelotas Secretaria da Segurança Pública / Divulgação

A pasta comunicou que, com a transferência dos agentes, outros policiais da ativa foram liberados para ações de policiamento ostensivo e atividades de linha de frente. Também disse que com a redução dos índices de criminalidade, o ingresso de 2 mil PMs do último concurso e a criação de dois novos batalhões de choque, “identificou a oportunidade de aprimorar o aproveitamento dos 47 servidores que compunham a Força Gaúcha”.

A Força Gaúcha de Pronta Resposta durou exatamente um ano. Começou a atuar em setembro de 2018, sob forte propaganda e anúncio do antigo governo. O decreto que a regulamenta, no entanto, só foi assinado em dezembro daquele mesmo ano.

Coordenador da Força Gaúcha lamenta encerramento

Coordenador da Força Gaúcha à época de sua criação, o tenente-coronel da reserva da Brigada Militar Alexandre Augusto Aragon lamenta o encerramento das atividades da unidade. O oficial, que já foi comandante da Força Nacional de Segurança Pública, entende como uma perda para as comunidades do Interior.

— O diferencial da Força Gaúcha era a guerra de movimentos: em determinado momento estávamos em uma cidade, depois noutra. Aquele que queria assaltar o banco não sabia onde a tropa estava. Isso inibiu a ação de assaltantes no Rio Grande do Sul. Quem perde são as pequenas cidades — lastimou Aragon.

O diferencial da Força Gaúcha era a guerra de movimentos: em determinado momento estávamos em uma cidade, depois noutra. Aquele que queria assaltar o banco não sabia onde a tropa estava
CORONEL ARAGON
Ex-coordenador da Força Gaúcha

Ele lembra que além de ataques a bancos, a tropa também atuou contra crimes de abigeato no Estado. Segundo ele, os fuzis usados, de calibre 762, haviam sido doados pelo Exército para o policiamento na fronteira, uma arma de maior poder ofensivo que as usadas pelos próprios brigadianos.

Um dos idealizadores da Força Gaúcha, o antigo secretário da Segurança Pública, Cézar Schirmer, lembra que a unidade foi um dos mecanismos encontrados para responder à saída de policiais e também da própria Força Nacional do Rio Grande do Sul.

— Se algum município estava sofrendo com a insegurança, nós deslocávamos imediatamente a Força Gaúcha. Os agentes iam auxiliar os policiais daquelas cidades com poucos policiais. A resposta era rápida. Ela foi uma das razões que fez cair o índice de assaltos a banco — comentou Schirmer.

O antigo secretário também disse que a tropa tinha um efeito psicológico aos moradores do interior, já que as equipes chegavam logo após os grandes roubos a bancos para auxiliar no policiamento.

Por meio da assessoria de imprensa, o vice-governador e atual secretário da Segurança Pública, Ranolfo Vieira Júnior, declarou que o retorno dos servidores da Força Gaúcha aos cargos originais aumentará a qualidade de atendimento à população. “O reforço nos BP Choques e nos POEs nos permitem ampliar significativamente o trabalho no tocante às ações de pronto-emprego de forma regional. Além disso, ao atuar diretamente ligados à BM, ao CBM e à Polícia Civil, esses servidores vão ampliar seu impacto diretamente na ponta, na prestação dos serviços da rotina da segurança pública. Assim, evitamos sobreposição de tarefas e conseguimos oferecer um atendimento ainda melhor para a população.”